A política já estava em campo

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Hossam Hassan entrou em campo carregando uma bandeira. Não era a do Egito. Era a da Palestina.

Dias depois, o técnico da seleção egípcia voltou a desafiar o silêncio ao afirmar que o sofrimento do povo palestino representava “uma vergonha para o mundo” e ao pedir que a FIFA, os atletas e a imprensa utilizassem a força do futebol para lembrar que uma tragédia humana continua acontecendo enquanto a bola rola.

A reação foi previsível. Como quase sempre ocorre, surgiram acusações de que ele havia misturado esporte e política. Mas talvez seja exatamente o contrário. Hossam Hassan não levou a política ao futebol. Ela já estava ali.

O esporte nunca viveu isolado da sociedade. Mobiliza multidões, movimenta bilhões de dólares, desperta identidades nacionais e, justamente por isso, sempre atrai governos, empresas e dirigentes. Uma Copa do Mundo nunca é apenas um torneio esportivo.

O curioso é que a política costuma ser considerada um problema apenas quando desafia a ordem estabelecida. Quando serve aos poderosos, recebe outros nomes: diplomacia, patriotismo, marketing ou protocolo. A chamada neutralidade nunca significou ausência de política. Significou decidir quais manifestações seriam aceitas e quais permaneceriam do lado de fora dos estádios.

Foi exatamente essa disputa que a Copa de 2026 voltou a expor.

A Copa que acabou com a ficção da neutralidade

Antes mesmo da bola rolar, a FIFA obrigou a seleção do Haiti a retirar da camisa a referência à Batalha de Vertières, vitória decisiva sobre o exército enviado por Napoleão Bonaparte para restaurar o domínio colonial francês sobre a ilha e reimplantar a escravidão. Não era uma convocação à guerra, mas a celebração da independência haitiana. Ainda assim, a homenagem foi considerada política demais para aparecer num uniforme.

Ao mesmo tempo, Donald Trump circulava com absoluta naturalidade pelos bastidores da competição. Pouco antes da Copa, a FIFA criara o FIFA Peace Prize e escolhera justamente o presidente norte-americano como seu primeiro homenageado.

O contraste era inevitável. Enquanto a FIFA censurava a homenagem haitiana por considerá-la política, homenageava o chefe de Estado que, naquele momento, oferecia apoio político, diplomático e militar à ofensiva israelense em Gaza — precisamente o drama humanitário que Hossam Hassan procurava trazer à consciência do mundo ao erguer a bandeira palestina.

A questão deixava de ser jurídica para se tornar moral. O problema nunca foi a presença da política no futebol, mas decidir quais causas podem ocupar o centro do gramado e quais devem permanecer invisíveis.

A política da compaixão

É nesse contexto que o gesto de Hossam Hassan ganha seu verdadeiro significado.

Ao entrar em campo com a bandeira palestina e afirmar que o sofrimento daquele povo era “uma vergonha para o mundo”, o treinador egípcio não convocou boicotes nem transformou o futebol em extensão da guerra. Apenas recusou a ideia de que milhares de civis desaparecessem da consciência internacional porque o espetáculo precisava continuar.

Seu apelo antecedia qualquer alinhamento geopolítico. Era um apelo à humanidade.

Talvez seja justamente isso que provoque tanto desconforto. A neutralidade funciona enquanto impede manifestações dos mais fracos. Quando alguém utiliza a visibilidade do futebol para lembrar que pessoas continuam morrendo, ela passa a parecer menos um princípio e mais um mecanismo de administração do silêncio.

Hossam Hassan apenas escolheu uma política diferente: a da compaixão.

O jogo continua sendo maior

Nada disso diminui a beleza do futebol. Pelo contrário.

O esporte sempre conviveu com interesses econômicos, propaganda, nacionalismos e disputas de poder. As Copas movimentam bilhões de dólares, atraem governos, patrocinadores e corporações globais porque produzem prestígio, influência e projeção internacional. Imaginar que um evento dessa dimensão possa existir isolado da realidade seria ingenuidade.

Mas também seria um erro permitir que esses interesses nos façam esquecer aquilo que torna o futebol um patrimônio cultural da humanidade: sua capacidade de reunir pessoas diferentes em torno da mesma emoção.

Talvez o maior equívoco seja imaginar que apenas quem protesta faz política. Quem censura também faz. Quem premia também. Quem escolhe o que pode ou não ser dito igualmente faz política.

O que permanece em disputa nunca foi a presença da política nos estádios, mas quem tem autorização para exercê-la.

Ainda assim, há algo que escapa aos governos, aos dirigentes e às corporações. Nenhum deles consegue fabricar a emoção que leva milhões de pessoas a atravessar continentes, lotar arquibancadas ou prender a respiração diante de uma bola cruzando a área nos minutos finais de uma partida. Essa emoção pertence aos torcedores, aos atletas e aos povos.

Hossam Hassan não mudou o rumo da guerra. Nenhum atleta ou treinador resolve, sozinho, os dramas do mundo. Mas, de tempos em tempos, o esporte devolve uma verdade que o poder jamais consegue controlar: antes de qualquer bandeira, fronteira ou ideologia, existe uma humanidade compartilhada.

Hossam Hassan entrou em campo carregando uma bandeira. Saiu dele lembrando ao mundo que nenhuma bandeira deveria valer mais do que uma vida humana. Talvez essa seja, afinal, a maior vitória que o esporte ainda pode oferecer.

Benedito Tadeu César – Cientista político

Fonte: Brasil247

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