Darcy Ribeiro escreveu que as elites brasileiras são socialmente irresponsáveis, corruptas, infecundas e responsáveis pelo atraso do país.
A meritocracia dessas elites e do círculo de capachos que gravita no seu entorno é uma piada contada por herdeiros e babões que nunca precisaram disputar uma vaga na plateia.
O sujeito nasce em berço de ouro, herda empresas, imóveis, fazendas, ações, relações, sobrenomes e até os amigos influentes do pai. Depois sobe ao palco para explicar que venceu porque acorda às cinco da manhã. É comovente. O galo também acorda às cinco e ninguém jamais o confundiu com um gênio da economia.
A maioria jamais produziu uma riqueza equivalente à que recebeu. Apenas administra o patrimônio repassado pelo avô ou pelo pai. Confundem inventário com inteligência e escritura com talento.
Se tivessem nascido na periferia, sem patrimônio, sem sobrenome, sem capital e sem padrinhos, muitos não conseguiriam administrar nem uma banca de caldo de cana. O único patrimônio que realmente construíram foi a própria arrogância.
E então entoam a retórica da meritocracia. São contra o “paternalismo estatal”. Desde que o Estado não pare de financiá-los e de agir como sua mãe.
Amam dinheiro público: em forma de crédito subsidiado, renúncia fiscal, perdão de dívidas, obras públicas, contratos generosos, benefícios fiscais, proteção tarifária, refinanciamentos, incentivos, financiamento a fundo perdido e toda sorte de mamatas cuidadosamente rebatizadas de “políticas de incentivo”. Bolsa para pobre destrói o país. Bilhões para empresário amigo, chamam de “incentivo”.
É um “liberalismo” fascinante que socializa os prejuízos e privatiza os lucros. O Estado serve apenas para garantir que o cassino nunca feche quando eles começam a perder.
Depois apontam o dedo para o trabalhador que pega quatro conduções por dia e dizem que lhe falta esforço. A maior viagem que fizeram na vida foi do berço ao conselho de administração da empresa da família.
O mais engraçado é a pose de superioridade intelectual. Falam como se fossem titãs do capitalismo, quando, na verdade, muitos jamais enfrentaram um único risco que não pudesse ser absorvido pelo patrimônio herdado. Confundem rede de proteção com coragem.
Não construíram nada. Receberam as chaves. Não venceram uma corrida. Nasceram cinquenta quilômetros à frente e ainda tiveram a audácia de zombar de quem largou descalço.
E chamam a isso de “mérito”.
Se o sobrenome fosse retirado, a herança desaparecesse e os contatos evaporassem, uma parcela considerável dessa aristocracia de condomínio descobriria que sua maior habilidade sempre foi assinar onde o pai mandava.
Se fossem plantas, fariam fotossíntese. Como não são, talvez a contribuição mais relevante que possam oferecer à humanidade venha depois da morte: devolver à terra, como adubo, a matéria orgânica que passaram a vida inteira confundindo com caráter.
Emerson Barros de Aguiar
Escritor, bioeticista e professor universitário
Fonte: Brasil247