Em um país onde o bolsonarismo se consolida como projeto político, os direitos da classe trabalhadora entram em terreno de risco. O retrato desta força não se resume à chegada de Flávio Bolsonaro ao segundo turno da eleição presidencial: Michelle e Carlos Bolsonaro foram eleitos para o Senado, enquanto Jair Renan e Renato Bolsonaro chegam à Câmara dos Deputados.
É a família Bolsonaro ocupando espaços estratégicos do Congresso, enquanto Jair, o patriarca, permanece em prisão domiciliar, em uma demonstração de que o projeto político do clã pretende sobreviver ao seu principal líder.
Os bolsonaristas representam uma ameaça grave para trabalhadores, mulheres, população periférica, juventude de baixa renda, população LGBTQIAPN+, indígenas e ribeirinhos. Para tais setores, a promessa de “liberdade” e “mérito” não enfrenta as desigualdades históricas do país. Na área trabalhista, a proposta de Flávio para substituir o fim da escala 6×1 pela chamada liberdade de escolha da jornada pode ampliar a flexibilização das relações de trabalho e enfraquecer a proteção coletiva.
O próprio candidato já defendeu que o trabalhador possa escolher quantas horas e quais dias trabalhar, recebendo de acordo com as horas trabalhadas, mas a realidade disso é a ditadura patronal, na qual o empregado trabalha mais sem qualquer tipo de garantia prevista em lei, lidando com a sombra de perder o seu “ganha pão”. Uma flexibilidade unilateral.
O projeto bolsonarista apresenta respostas reacionárias para crises sociais, econômicas, ambientais e políticas: mais privatizações, redução do papel do Estado e uma concepção de “liberdade” que transfere para o indivíduo responsabilidades que deveriam ser enfrentadas por políticas públicas.
No mundo real, a meritocracia transforma desigualdade em culpa individual: se o trabalhador é pobre, a responsabilidade seria dele, mesmo diante de jornadas exaustivas e de uma estrutura econômica que concentra renda e oportunidades. A proposta de uma carteira de trabalho com menos custos para empregadores e a defesa do “negociado sobre o legislado” reforçam o alerta sobre o futuro dos direitos trabalhistas.
O resultado eleitoral do primeiro turno abre, portanto, um longo período de resistência e disputa. A ameaça não está apenas na possibilidade de Flávio Bolsonaro chegar à Presidência, mas na consolidação de uma força política capaz de pressionar o Congresso por retrocessos durante os próximos anos. O cerco à CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o bloqueio ao fim da escala 6×1, a redução da proteção social e o enfraquecimento da organização sindical fazem parte de uma disputa maior sobre o futuro do Brasil. Para a classe trabalhadora, o que está em jogo é o direito de trabalhar para viver e não viver para trabalhar.
Fonte: Movimento Sindical