Mulheres negras recorrem mais ao crédito e pagam juros mais altos, aponta relatório do BC

Mulheres negras recorrem mais ao crédito e pagam juros mais altos, aponta relatório do BC

Mulheres negras são a parcela da população de baixa renda que paga as taxas de juros mais elevadas no país, mostra o Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central, divulgado nesta segunda-feira (13).

É a primeira vez que a instituição divulga esses dados segmentados por gênero e raça. O último levantamento sobre o assunto havia sido publicado em 2021 e não trazia esse recorte.

O relatório reúne estudos para a formulação de políticas públicas voltadas para a inclusão e educação financeira e apresenta informações sobre acesso, uso e custo do crédito no Brasil, a partir de dados de 2024.

Em relação à população geral, o novo relatório mostrou um aumento de 55% no uso das modalidades que geram dívida com juros no cartão (crédito rotativo e parcelamento de faturas) nos últimos quatro anos. Em 2020, eram 34 milhões de pessoas nessa situação; em 2024, o número saltou para 52,8 milhões —mais da metade do total de 96,6 milhões de usuários com cartão de crédito ativo.

No caso das mulheres negras, os dados revelam uma inclusão financeira quase universal na baixa renda (97,8%, acima da média geral de 96,4%), mas com sinais de alerta em relação à qualidade desse uso.

Entre aquelas inscritas no CadÚnico (Cadastro Único), 62% são tomadoras de crédito e enfrentam taxas médias que chegam a 140% ao ano. Para mulheres brancas, a taxa é de 128%; para homens negros, 110%; e, para homens brancos, 97%.

Parte desse custo mais elevado está associado à maior concentração das dívidas no rotativo e no parcelado do cartão, que representam cerca de 23% da carteira de crédito do grupo.

Embora sejam as maiores usuárias de microcrédito produtivo —empréstimo destinado a micro e pequenos empreendedores para impulsionar seus negócios—, as mulheres negras são empurradas para modalidades mais onerosas do sistema financeiro, explicou Luis Mansur, chefe do Departamento de Promoção da Cidadania Financeira do Banco Central, em live sobre o relatório nesta tarde.

"Isso faz com que o rotativo e o parcelado representem cerca de 23% do total do crédito contratado, enquanto o microcrédito responde por apenas 4%. Dessa forma, quando olhamos a composição geral da carteira, vemos que essa concentração em linhas mais caras acaba levando a uma taxa de juros mais alta para as mulheres negras."

De modo geral, o endividamento de risco é mais prevalente entre a população feminina no Brasil, atingindo 15,4% das tomadoras de crédito, em comparação a 12,1% dos homens.

A disparidade de gênero histórica no acesso a conhecimentos financeiros técnicos também prejudica as mulheres, que ficam mais suscetíveis a modalidades de crédito onerosas.

Elas também têm mais dificuldade de acessar financiamentos para pequenos negócios. Mulheres empreendedoras pagam taxas de juros cerca de 4 pontos percentuais maiores que os homens, segundo dados do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) incluídos no relatório do BC.

Isso ocorre devido à percepção de maior risco pelas instituições financeiras, à falta de histórico de crédito formal e à dificuldade em oferecer garantias, já que possuem menos bens registrados em seus nomes.

Bancarização avança entre brasileiros
O número de adultos com relacionamento com instituições financeiras atingiu 175 milhões ao final de 2024, o que representa 96,4% da população adulta. O brasileiro mantém em média 6,7 relacionamentos com instituições financeiras.

Em todos os grupos analisados, mais de 90% das pessoas têm acesso ao sistema financeiro, incluindo indígenas (93,7%), quilombolas (97,2%), moradores da zona rural (96,5%), pessoas com deficiência (90,4%) e população em situação de rua (com 99,2%).

Segundo o relatório do Banco Central, esse acesso ampliado é efeito direto da criação do Pix, cuja adoção, até o fim de 2023, já alcançava mais de 70% da população de baixa renda.

Outro fator citado é a ascensão das fintechs —empresas de serviços financeiros digitais que chegaram a 123 milhões de clientes em 2024, atraindo, em especial, o público mais jovem por meio de soluções centradas no usuário e de menor custo.

A obrigatoriedade de abertura de conta bancária para receber a Bolsa Família é outra explicação para o alto índice de acesso, especialmente entre as mulheres, que são as beneficiárias prioritárias do programa.

Segundo Izabela Correa, diretora de Cidadania e Supervisão de Conduta.do BC, o avanço da bancarização e do acesso a crédito precisa vir acompanhado de educação financeira —promovida tanto pelas escolas quanto pelos próprios bancos, que desde 2024 são obrigados a oferecer esse tipo de conscientização para os consumidores. "Sabemos que não é o único pilar que teremos que mobilizar para avançar nesse tema, mas é um pilar importante", afirma.

Fonte: Folha de SP

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