Liquidações Recentes de Entidades Bancárias Irão Gerar Custo Bilionário Aos Bancos

O pagamento combinado dos depósitos garantidos do Will Bank, que teve liquidação decretada nesta quarta-feira, 21, e do Banco Master, que havia sido liquidado há dois meses, soma R$ 46,9 bilhões. Esse valor irá reduzir significativamente as reservas do Fundo Garantidor de Depósitos (FGC), o que irá gerar custos aos bancos que contribuem para o fundo. Contudo, a agência de classificação de risco Moody’s considera que esse impacto seja administrável pelas instituições financeiras.
De acordo com o FGC, será necessário desembolsar R$ 40,6 bilhões aos depositantes do Master e cerca de R$ 6,3 bilhões aos depositantes segurados do Will Bank, o que representa cerca de um terço de seu volume de liquidez existente de aproximadamente R$ 121 bilhões em junho de 2025. Esse consumo de liquidez exigirá uma recomposição ao longo de vários anos pelos bancos associados.
Embora não haja divulgação sobre a proporção dos depósitos de cada banco que são efetivamente segurados, os bancos mais importantes, incluindo Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, Santander, Caixa e BTG Pactual respondem juntos por 75% dos depósitos do sistema elegíveis para seguro e, portanto, arcam com a maior parte da contribuição.
Qual será o impacto sobre os bancos?
A Moody’s estima um déficit de liquidez de R$ 55 bilhões em comparação ao índice mínimo de cobertura de 2,5% dos depósitos segurados do FGC o qual, distribuído de acordo com a participação dos cinco maiores bancos no total de depósitos, equivaleria a 2,3% do estoque combinado de ativos líquidos de alta qualidade dessas instituições em setembro de 2025.
Essa redução da liquidez dos bancos pesará sobre a renda de investimentos. Com a taxa de política monetária atualmente em 15%, uma redução total de R$ 55 bilhões na liquidez do sistema implica um efeito anual de mais de R$ 8 bilhões na receita líquida de juros, equivalente a cerca de 2,1% do total reportado nos 12 meses até setembro de 2025.
Quando os recursos líquidos do FGC caem abaixo de seu índice mínimo de cobertura de 2,5% dos depósitos segurados, o conselho pode ativar ferramentas legais para reconstruir a liquidez. As ferramentas incluem antecipar futuras contribuições ordinárias de forma proporcional ao financiamento coberto de cada membro e aprovar sobretaxas temporárias além da alíquota de 0,01% que todos os bancos pagam mensalmente sobre os depósitos segurados.
Para mitigar as pressões de liquidez sobre os membros, o conselho do FGC provavelmente dependerá de uma combinação de antecipação multianual das contribuições ordinárias e de uma sobretaxa temporária de 50% sobre a contribuição ordinária até que a liquidez seja restabelecida ao nível-alvo.
Além disso, o BC e o FGC anunciaram que estão reavaliando a metodologia utilizada para calcular os limites do fundo de seguro de depósitos e o tamanho geral do fundo. Essa revisão, conduzida a cada quatro anos, considera a evolução dos depósitos elegíveis, os perfis de risco dos participantes e a participação dos depósitos segurados no sistema.
A metodologia atualizada pode levar a prêmios de seguro de depósitos mais altos, particularmente para bancos menores que aumentaram o uso do seguro nos últimos cinco anos, além das contribuições adicionais necessárias para recompor o fundo, aumentando os custos de captação em todo o sistema bancário.
Bancos médios sofrem com desconfiança
Além de impacto direto nos grandes bancos, que provavelmente terão de recompor a liquidez do FGC, as duas liquidações podem tornar mais difícil para bancos menores, do mesmo porte do Master, captarem dinheiro no mercado.
Assim como o Master, esses bancos costumam ter uma captação muito ligada à distribuição desses títulos para pessoas físicas, principalmente CDBs com taxas elevadas, explica Matheus Falci, sócio da One Investimentos. “Agora, o investidor está mais cauteloso com relação a outros bancos desse mesmo porte e pode migrar investimentos para bancos mais conservadores, que conhece há mais tempo, evitando o risco de outra liquidação, tendo em vista que a do Master e do Will Bank foram bem próximas.”
Mas a Moody´s acredita que esse impacto tende a diminuir com o tempo, e as duas liquidações bancárias devem tornar os investidores mais avessos ao risco apenas nas próximas semanas ou meses, Isso porque a forte liquidez doméstica atualmente presente nos mercados de capitais do Brasil provavelmente ajudará os bancos associados ao FGC a cobrir suas necessidades futuras de liquidez.
Em setembro de 2025, o volume total em circulação de letras financeiras era de R$ 658 bilhões, alta de 57% em três anos, dos quais 55% foram emitidos pelos maiores bancos. A esperada moderação na originação de crédito este ano também reduzirá as pressões de liquidez e as necessidades de captação dos bancos médios, em meio ao menor sentimento empresarial e às incertezas relacionadas ao crescimento econômico mais fraco esperado para este ano.
Como fica a garantia para os investidores?
O Banco Master teve sua liquidação decretada pelo Banco Central no fim de 2025, após sucessivos problemas de liquidez e deterioração patrimonial. A cobertura do FGC foi ativada para ressarcir investidores que tinham aplicações cobertas pelo fundo, sobretudo em CDBs, até o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
A decisão do BC de liquidar também o Will Bank, pertencente ao mesmo conglomerado, acendeu um alerta adicional. Pela regra vigente, o teto de cobertura do FGC é único por conglomerado financeiro, o que significa que investidores com aplicações nas duas instituições não irão receber valores adicionais caso já tenham atingido o limite com o Banco Master.
O FGC aponta que caso o credor já tenha recebido o valor limite da garantia de R$ 250 mil na liquidação das instituições pertencentes ao Banco Master ou Letsbank, não haverá valores adicionais a receber do fundo pela liquidação do Will Bank, uma vez que todas as instituições pertencem ao mesmo conglomerado financeiro”.
Por conta das especificidades de cada liquidação, não existe um prazo legal para o início dos pagamentos. Os times operacionais costumam empreender esforços para concluir a consolidação das informações no menor tempo possível. Nas últimas liquidações o tempo para início do pagamento esteve entre 30 e 60 dias.
Fonte: Forbes





