Conservadores radicais querem mais CLT que progressistas, diz pesquisa…

A maioria dos brasileiros (63%) prefere a segurança de um emprego CLT, incluindo direitos e proteções como aviso prévio, férias e 13º salários, mesmo que tenha que cumprir horário e receber ordens de um chefe. E há mais defensores das proteções da leis trabalhistas entre conservadores radicais do que entre progressistas.
O resultado está na pesquisa "O Brasil Invisível", realizada pela ONG More in Common em parceria com a Quaest, coordenada por Pablo Ortellado, professor de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo, e lançada ontem em São Paulo. Foram ouvidas mais de 10 mil pessoas em todo o país, com margem de erro geral de um ponto, para entender como está dividida a sociedade brasileira e o que pensa cada segmento.
A pesquisa dividiu a sociedade em seis grupos. À esquerda, os Progressistas Militantes representam cerca de 5% da população. À direita, os Patriotas Indignados somam aproximadamente 6%. São esses os grupos mais engajados e ruidosos. Eles, inclusive, puxam consigo dois outros grupos de apoio, mais numerosos e menos engajados: a Esquerda Tradicional (14%) e os Conservadores Tradicionais (21%). Por fim, Desengajados (27%) e Cautelosos (27%) são a maioria silenciosa, o primeiro, mais progressista, o segundo, mais conservador, mas fora do debate político — mais sobre eles ao final deste texto.
A opção por um emprego CLT, com direitos, mesmo que tenha que bater cartão e ter chefe, é endossada por 51% dos Progressistas Militantes, 68% da Esquerda Tradicional, 65% dos Desengajados, 64% dos Cautelosos, 49% dos Conservadores Tradicionais e 71% dos Patriotas Indignados. Ou seja, mais Patriotas Indignados do que Progressistas Militantes.
Estamos acostumados a associar a defesa e o desejo das proteções sociais ao trabalho mais às identidades de esquerda e menos às identidades de direita. Mas, para Ortellado, isso é verdade para quem tem identidade de ser de esquerda ou direita e é verdade também para quem votou em Lula ou Bolsonaro. "Agora quando olhamos para a distinção progressista e conservador, tanto do ponto de vista da opinião quanto do ponto de vista da identidade, descobrimos que os conservadores mais radicais preferem mais dos que os progressistas as proteções sociais do trabalho", analisou ao UOL.
O coordenador do estudo afirma que, embora pareça surpreendente, precisamos lembrar que o espectro político hoje é organizado em dois eixos: um que vai do social ao liberal, outro que vai do progressista ao conservador nos costumes. E nesse eixo de costumes, o conservadorismo quer proteção ao trabalho.
"É um achado que tem implicações importantes para os políticos que mobilizam os conservadores e que pressupõem erroneamente que sua base seria também economicamente mais liberal", afirma.
Trabalhadores querem proteção CLT, mas também autonomia
O grupo dos Conservadores Tradicionais, segundo a pesquisa, se divide com alguma vantagem para a valorização de trabalhar sem patrão e com o próprio horário, mesmo sem direitos.
Todos os grupos também concordam que seja descontada de sua remuneração a contribuição para o INSS para garantir aposentadoria, salário-maternidade, auxílio-doença e pensão por morte. Isso é chancelado por 71% dos Progressistas Militantes, 66% da Esquerda Tradicional, 63% dos Desengajados, 62% dos Cautelosos, 56% dos Conservadores Tradicionais e 62% dos Patriotas Indignados.
Mas a pesquisa também aponta que apesar de desejarem a segurança da CLT, os brasileiros também valorizam a flexibilidade de ser autônomo e não empregado de alguém, inclusive entre os seguimentos mais à esquerda no espectro ideológico. O estudo aponta que as razões para isso ainda precisam ser aprofundadas.
Gostariam de ser autônomos 58% dos Progressistas Militantes, 60% da Esquerda Tradicional, 66% dos Desengajados, 70% dos Cautelosos, 75% dos Conservadores Tradicionais e 75% dos Patriotas Indignados.
Uma análise possível dos dados é que a maioria dos brasileiros conhece e quer as proteções da CLT, e aceita os deveres de um contrato de trabalho, mas estão cansados de empregos ruins que pagam pouco, chefes assediadores e incompetentes e jornadas longas e extenuantes.
Nesse contexto, enquadra-se a discussão da mudança da jornada 6 por 1 para um padrão 5 por 2. O tema, que voltou à tona através do vereador carioca Rick Azevedo e da deputada federal Erika Hilton, ambos do PSOL, atualizou a demanda sindical da redução de 44 para 40 horas semanais.
Segundo a pesquisa, mesmo entre o grupo dos patriotas indignados, os que mais querem ser autônomos, melhorar emprego e renda deve ser prioridade do governo, apenas atrás da saúde.
'Invisíveis' serão os fiéis da balança eleitoral
O senso comum, amplificado pelas caixas de ressonância das redes sociais e pelo calor do debate político, tem nos convencido de que o Brasil está irremediavelmente polarizado. Mas a pesquisa desmonta essa interpretação e revela um panorama mais complexo e cheio de nuances. E a forma como o trabalho é visto é uma delas, com grupos ideologicamente diferentes concordando na importância de direitos, por exemplo.
A chave para entender o resultado das eleições está nos chamados Desengajados e Cautelosos, que forma 54% da população.
"O que define esses segmentos intermediários é que eles estão sob um efeito bem mais suave da ação dos grupos polarizados. Se o que move o grupo mais conservador é a questão da moral, da ordem, dos valores familiares e o que move o grupo mais progressista é a justiça social, os grupos do meio assimilam as duas coisas a mesmo tempo, em nuances", explicou Ortellado.
Esses dois segmentos são chamados pela pesquisa de os "invisíveis" porque não estão polarizados na maioria das questões investigadas e preferem se afastar da política ruidosa. Mas decidem eleições
Leonardo Sakamoto
Fonte: UOL





