Dívida das Unimeds passa de R$ 1,2 bi e governo teme calote

A dívida das Unimeds com a União ultrapassou R$ 1,247 bilhão e o medo de calote assombra o governo. Esse valor se refere a débitos tributários e previdenciários que estão inscritos na dívida ativa. Assim como o sistema de cooperativas de saúde está pulverizado no país, o mesmo ocorreu com as dívidas e as dificuldades de cobrá­las se espalharam.Unimed

Apesar da divisão das Unimeds pelo Brasil, a estratégia que elas utilizam para não quitar as dívidas é semelhante em vários Estados. Um dos casos que têm recebido atenção especial do governo é o da Unimed de Brasília, cujo pedido de insolvência foi acatado pela Justiça. O débito com a União ultrapassa R$ 426 milhões, praticamente 90% do valor se deve ao não repasse ao governo de imposto retido.

Outro caso que ganhou evidência é o da Unimed Paulistana, em São Paulo, que obteve na segunda­feira uma ação cautelar derrubando a liquidação extrajudicial decretada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A Unimed Paulistana tem uma dívida de cerca de R$ 163 milhões com a União.

Segundo levantamento obtido pelo Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor, a dívida das Unimeds está espalhada por todo o país. No Ceará, a dívida da empresa com a União atingiu R$ 263 milhões e em Pernambuco já está em R$ 85 milhões. No Rio de Janeiro, em mais de R$ 127 milhões. Em Minas Gerais, superam R$ 79 milhões. No Rio Grande do Sul, seriam R$ 30 milhões e no Paraná, R$ 25 milhões. No Pará, é superior a R$ 49 milhões.

Além da dificuldade de cobrança por causa de uso de diferentes CNPJs pelo país, a dívida das Unimeds cresceu assustadoramente por causa de procedimentos reconhecidos como criminosos pela Fazenda, como recolher o INSS, mas não pagar o valor devido aos funcionários.

Ao adotar essa prática, a cooperativa se apropriou de um dinheiro que não seria dela, mas dos trabalhadores. O governo perdeu a tributação das cooperativas e não consegue cobrar a dívida, que deve se transformar num “esqueleto”, com decisões que blindam o patrimônio dessas entidades frente a penhoras e tentativas de cobrança pela Fazenda.

O temor de calote do governo é real e a expectativa é de que outras empresas de plano de saúde tracem o mesmo caminho da Unimed de Brasília e entrem na Justiça com pedido de insolvência. Uma vez declarada como insolvente, as penhoras que haviam sido determinadas anteriormente para a Unimed Brasília pagar a dívida são suspensas. Com isso, a cooperativa deve, mas não paga os credores públicos.

No caso de Brasília, o juiz da Vara de Falências do Distrito Federal, Edilson Enedino, suspendeu a penhora de dois imóveis que a Unimed foi obrigada a colocar à venda para quitar suas dívidas. Os terrenos no local onde funcionou o Hospital Planalto foram avaliados em R$ 75 milhões e terminaram vendidos, em leilão, por apenas R$ 37 milhões.

Em dezembro, a Procuradoria Geral da União (PGFN) entrou com recurso na Vara de Falências para que o dinheiro do leilão seja usado para restituir a União de impostos retidos na fonte que não foram repassados. A legislação garante que os recursos do leilão sejam destinados para restituir o governo. Mas o juiz ainda não tomou uma decisão final. Procurado, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) informou que o juiz não se posiciona sobre casos específicos.

Se conseguir um parecer favorável, o governo poderá receber todo o valor do leilão do imóvel de R$ 37 milhões, o que amenizaria as perdas aos cofres públicos e daria um alívio à equipe econômica nesse cenário de forte recessão e, consequentemente, de perdas de receita. A estratégia poderá ser usada para a cobrança de outros planos de saúde que tiverem sua insolvência decretada.

A maior parte da dívida das Unimeds está travada na Justiça. Enquanto isso, há notícias de patrocínios das Unimeds a eventos internacionais, a times de futebol e uma campanha de publicidade na televisão.

Procurada para se pronunciar sobre as dívidas com a União, a Unimed Brasil informou que acompanha a gestão operacional das 350 cooperativas que integram o Sistema Unimed e oferece apoio na adequação dos planos econômico­financeiros das operadoras, respeitando a autonomia administrativa de cada uma delas.

“Apesar do setor de saúde suplementar possuir reservas técnicas na ordem de 40%, que constituem valores considerados como necessários e suficientes para o pagamento futuro de contingências, a incorporação de novas tecnologias, inflação oficial e judicialização são alguns dos fatores que contribuem diretamente para a instabilidade econômica de operadoras de planos de saúde e de cooperativas médicas”.

A Unimed do Brasil também informou que em 2014 as cooperativas do Sistema Unimed registraram faturamento de R$ 43,9 bilhões. “A Unimed tem modelo de negócios e perfil mercadológico diferente de seus concorrentes, uma vez que investe constantemente em recursos próprios como construções e ampliações de hospitais e laboratórios”, diz a nota ao Valor.

Até o fechamento desta edição, a Unimed Paulistana não havia se posicionado sobre a dívida da cooperativa. Questionado sobre o liquidante da Unimed Brasília, a ANS informou que como a cooperativa foi considerada insolvente, os questionamentos devem ser respondidos pela Vara de Falência do DF, que não se pronuncia sobre casos em andamento.

Fonte: Valor Econômico

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