Crises de Brasil e Grécia se parecem? Veja dados e a opinião de economistas

Crise na GreciaAs crises de Brasil e Grécia são semelhantes? O Brasil corre riscos similares ou tem algo a aprender com as dificuldades gregas?

Há pontos que parecem próximos, como desemprego aumentando, problemas com a Previdência e o pagamento de aposentadorias; e uma crise de confiança entre empresários, investidores e a própria população.

O UOL ouviu três economistas para falar sobre isso: o professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Istvan Kasznar; o professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Plínio de Arruda Sampaio Jr.; e o professor da FEA (Faculdade de Economia e Administração), da USP (Universidade de São Paulo), Paulo Feldmann.

Principais diferenças:
Histórico do PIB desde a crise econômica de 2008
Controle da moeda nacional
Causas diferentes para a inflação
Relação com o FMI
Nível de desemprego

Principais semelhanças:
Dependência de capital estrangeiro
Países reféns dos bancos
Crise de confiança

PIB, dívida e calote
O professor da FGV Istvan Kasznar diz que as duas economias não são comparáveis. A metodologia utilizada para medição de vários indicadores é diferente, o que já complica a análise. Mesmo assim, há alguns dados que mostram as diferenças entre os países:

No Brasil, o crescimento desacelera (leve alta de 0,1% em 2014).
A Grécia tem tido PIB negativo de 2008 a 2013, com queda de 26% em 7 anos
Esse é um quadro de depressão (pior que recessão, baixa atividade econômica)
A dívida pública grega é de 117% do PIB
No Brasil, a dívida pública é 58% do PIB, segundo o Trading Economics.
A Grécia deu calote nas dívidas que têm com o FMI
O Brasil deixou de dever ao FMI em 2005

Inflação
A inflação é outro indicador que não se pode correlacionar, segundo Kasznar: a Grécia tem falta de demanda (procura por produtos); a procura no Brasil está em alta, é a oferta que não acompanha.

Além disso, a União Europeia tem uma taxa básica de juros de 0,05% ao ano; no Brasil, a Selic está em 13,75%.

Desemprego
Embora o desemprego esteja preocupando tanto gregos quanto brasileiros, o cenário é bem diferente: lá ele atinge 26% da população e mais da metade dos jovens; aqui, o desemprego geral é de 6,7%, e de 16% para os jovens.

Capacidade produtiva
A infraestrutura produtiva do Brasil está melhor, diz Kasznar. “Lá a capacidade produtiva foi desmontada. Você realmente vê fábricas fechadas, prédios quebrados, aeroporto parado. Não é o que eu vejo no Brasil”, afirma.

“A Grécia não é um país para nos ensinar [sobre como lidar com a crise econômica]. Há anos eles estão tendo problemas sociais, econômicos e políticos que não são nada similares aos do Brasil”, declara o professor da FGV.

“Fabricação” de dinheiro
A Grécia faz parte da zona do euro, o que significa que o país não pode controlar a própria moeda. É o Banco Central Europeu que controla a emissão (“fabricação”) de dinheiro, e as decisões precisam ser tomadas de comum acordo entre todos os governos do bloco.

O Brasil teria essa “vantagem” numa emergência: poder emitir dinheiro, sacrificando o câmbio e a inflação, para estabilizar a economia interna e se recuperar, com danos menores para a população.

Mas Plínio de Arruda Sampaio Jr., da Unicamp, diz que essa vantagem é apenas teórica. Na prática, emitir mais moeda seria contrariar a política econômica: livre flutuação do câmbio, metas de inflação e superavit primário (poupança para pagar os juros da dívida pública).

A vantagem de a Grécia estar na zona do euro é que ela tem apoio internacional (sob certas regras) para não quebrar, já que não seria interessante aos outros países do bloco.

“No caso do Brasil, quando a crise se manifestar na potência máxima, nós não contaremos com a solidariedade de ninguém”, diz.

Reféns dos bancos
Para Paulo Feldmann, professor da FEA/USP, a principal semelhança entre as duas crises é que ambos os países foram reféns de bancos privados.

No caso grego, grande parte da dívida do país com bancos estrangeiros (principalmente franceses e alemães) já foi perdoada, mas ainda assim, só 10% do dinheiro do resgate feito pelos órgãos internacionais foi usado em melhorias para o país. O resto foi para os bancos, segundo um levantamento do jornal britânico “The Guardian”.

No Brasil, Feldmann cita que o principal agravante do momento de fraqueza econômica é a alta de juros, um instrumento que ele considera defasado para combater a inflação e impulsionar o crescimento. Segundo Feldmann, as taxas de juros altas só beneficiam os grandes bancos.

Dependência de capital estrangeiro
Plínio de Arruda Sampaio Jr., da Unicamp, defende que o grande mal comum entre os dois países foi atrelar o crescimento econômico à dependência do capital estrangeiro.

“A causa do problema é apostar no capital internacional como mola propulsora para o desenvolvimento, e os dois países fizeram isso. Quando as condições mudam e os capitais saem, os países enfrentam estrangulamento cambial.”

Para ele, o Brasil tem especificidades graves neste aspecto, principalmente por não ter mecanismos próprios pra aquecer a economia. O crescimento do Brasil, segundo Sampaio, depende da economia internacional, que está em crise.

Fonte: UOL

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