Com seguidas trocas de comando na Petrobras, Bolsonaro tenta fugir de responsabilidade sobre preços

Fernando Borges ficará como presidente interino da Petrobras, enquanto não é escolhido o novo chefe – que será o quarto no atual governo

As sucessivas mudanças de comando na Petrobras têm o objetivo de criar “cortinas de fumaça” em relação às responsabilidades do governo na formação de preços dos combustíveis, avaliam políticos e trabalhadores. Nesta segunda-feira (20), o então presidente da estatal, José Mauro Coelho, renunciou depois de apenas dois meses no cargo. É o terceiro na gestão Bolsonaro. Ele vinha sofrendo ataques de Jair Bolsonaro (que o indicou) e do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que dizem defender uma comissão parlamentar de inquérito que apuraria as razões para os preços dos combustíveis. A Petrobras ficará sob o comando interino do diretor executivo de Exploração e Produção (E&P) da companhia, Fernando Borges, funcionário de carreira.

“Um caso inédito na história do Direito: o presidente da República quer uma CPI para investigar a Petrobras, que integra o governo que ele chefia”, comentou o ex-governador Flávio Dino (PSB), em sua rede social. “E por conseguinte investigar os presidentes da Petrobras que ele mesmo nomeou. Ou seja, ele quer investigar a si próprio?”, questionou. “Cai mais um presidente da Petrobras. E a situação vai ficar a mesma. Pra resolver a situação, o presidente que deveria sair era outro: o Brasil sabe muito bem quem é!”, disse o pré-candidato Ciro Gomes (PDT).

Instabilidade

O economista Roberto Castello Branco foi o que durou mais tempo à frente da Petrobras no atual governo: dois anos e três meses. Seu sucessor, o general Joaquim Silva e Luna, ficou exatamente um ano, enquanto Coelho permaneceu apenas dois meses (confira abaixo). O governo chegou a indicar o empresário Adriano Pires, fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), que desistiu após ser questionado por querer manter um filho na entidade, prática vedada pela Lei das Estatais (13.303). A Petrobras já teve presidentes mais longevos, como Joel Rennó (Itamar Franco/FHC) e Sergio Gabrielli (Lula/Dilma), que ficaram seis anos e meio cada.

Assim, as constantes trocas em uma empresa do porte da Petrobras são um fator de instabilidade, com reflexos econômicos imediatos. E indicam, como se falou repetidamente hoje, que o problema não está em quem foi colocado no posto, mas em quem nomeou. No caso, o presidente da República. Com o provável objetivo de desgastar a estatal e facilitar o caminho para sua privatização.

Impacto na inflação

“O preço dos combustíveis, que impacta diretamente na inflação dos alimentos, continua nas alturas e o presidente, que deveria tomar alguma atitude, diz que a culpa não é dele (indo contra todos os fatos) e ameaça desmontar e privatizar a Petrobras”, afirma o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Enquanto isso, a dolarização dos combustíveis segue fazendo estragos. O presidente do país se comporta como se não tivesse nada a ver com o que acontece dentro da estatal que tem como maior acionista a União e busca fazer parecer que nada pode fazer para conter os constantes reajustes. A União, como acionista controladora da Petrobras, tem poderes sobre a empresa para decidir seu comando e, consequentemente, sua política de preços”, ressalta Lula.

Ao comentar os ataques de Lira à direção da Petrobras, o jornalista Reinaldo Azevedo afirmou que a nova troca de comando da estatal não resultará em queda nos preços dos combustíveis, mas pode provocar novo “tombo” das ações. E acrescentou: “Parece ato deliberado para levar a Petrobras às cordas, o que facilitaria vendê-la se ganharem as eleições. Governo incompetente vocifera, pragueja e provoca desordem fiscal”. Hoje pela manhã, as ações da estatal chegaram a cair 5%. As negociações foram suspensas devido à divulgação das mudanças e passaram a ser negociadas em alta.

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) vê “deboche” do governo Bolsonaro ao fazer uma “encenação” com as críticas à companhia. “O foco da gestão da Petrobras, no atual governo, é geração de caixa, com a venda de derivados a valores de PPI, garantindo altos lucros e dividendos recordes para acionistas. Do lado mais frágil está o trabalhador brasileiro que, há três anos, não tem reajuste real do salário mínimo””, afirma a entidade

“A ameaça de CPI da Petrobrás é mais uma pauta bomba de Bolsonaro/Lira, direcionada à empresa, com objetivo definido: criar narrativa mentirosa de que a Petrobras é o problema”, reage o coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar. “Trocas sucessivas de presidente e diretoria da estatal fazem parte da mesma estratégia em busca de destruição da imagem da empresa.”

Presidentes da Petrobras

Roberto Castello Branco: janeiro de 2019 a abril de 2021

Joaquim Silva e Luna: abril de 2021 a abril de 2022

José Mauro Coelho: 14 de abril a 20 de junho de 2022

Fonte: Brasil 247