A História quer o confronto direto de Lula com Bolsonaro

“O segundo turno desafia a capacidade de reorganização do PT e a compreensão da força política dos eleitores evangélicos”, escreve Moisés Mendes

Algumas conclusões ligeiras sobre o resultado do primeiro turno e do que pode vir por aí, enquanto o Brasil puxa o ar e tenta entender o que aconteceu no domingo.
Lula pode ter selado um acordo com a História, com sua própria trajetória e com os destinos do país, para que vença Bolsonaro num confronto direto com Bolsonaro.
Mas esse segundo turno com o sujeito competitivo põe à prova as estruturas da democracia. Essa foi uma eleição com características próprias, nunca registradas antes.
E tudo ficará pior, com maior disseminação do medo e de riscos de violência, além do aumento da propagação em massa de fake news e das suspeitas sobre o sistema eleitoral.
O bolsonarismo conseguiu camuflar seu eleitorado, até a eleição, e está confirmada a teoria segundo a qual o voto da extrema direita era encabulado e não se revelava totalmente nas pesquisas.
A reversão de expectativas provoca um certo abalo na autoestima não só do PT, mas das esquerdas, que têm menos de um mês para reorganizar apoios, bases e estratégias.
O segundo turno acontecerá com os institutos de pesquisa sob suspeição, o que é terrível para a democracia.
Até a semana passada, poderíamos dizer que dificilmente Bolsonaro repetiria em 2022 os mesmos apoios de 2018, por ter afugentado parte da classe média com a radicalização de discurso e atitudes. A rejeição não é tão grande como parecia.
A campanha da extrema direita até a eleição de 30 de outubro pode criar um ambiente jamais visto no país, com o fortalecimento de contingentes que não esperavam essa performance de Bolsonaro, incluindo os armamentistas.
Lula terá que potencializar apoios que recebeu no primeiro turno, alguns tardiamente, para muito além das declarações de celebridades e dos compromissos assumidos por caciques.
O segundo turno desafia a capacidade de reorganização do PT e a compreensão da força política dos eleitores evangélicos, subestimados pelas esquerdas.
Bolsonaro terá de buscar uma nova calibragem para seu discurso e suas atitudes, para que não cometa o erro do excesso de radicalização.
O amigo do padre tem um mês para usar e abusar da máquina de governo, multiplicando o que já vem fazendo descaradamente, sem punição, desde o começo da campanha.
Com o cenário que surge no domingo, a classe média que apoiou Bolsonaro (e que muita gente passou a definir como nova direita) pode se convencer de que não precisa buscar alternativas ao fascismo, mesmo que continue subordinada às ideias da família no poder.
Preparem-se para grandes emoções, porque a roda gigante parou com todos nós lá no alto, e ninguém mais sabe direito quem tem o comando da máquina.

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

Fonte: Brasil 247