02/10/18 Eleições

Utopia e política

Tudo é po­lí­tica, mas a po­lí­tica não é tudo. Par­ti­cipar da vida po­lí­tica, ainda que apenas pelo voto, é exer­cício de ci­da­dania. Porque a po­lí­tica tem a ver com todos os as­pectos de nossas vidas, da qua­li­dade dos ser­viços de saúde à se­gu­rança de nossas fa­mí­lias. Quem anula o voto ou vota em branco fa­vo­rece o poder vi­gente e fica de costas para o bem comum.

Não há como er­ra­dicar a mi­séria, re­duzir a cri­mi­na­li­dade e a de­si­gual­dade so­cial sem a ati­vi­dade po­lí­tica. A po­lí­tica serve para oprimir e fa­vo­recer a cor­rupção, como também para li­bertar e punir os cor­ruptos. Tudo de­pende do modo como é exer­cida.

O Evan­gelho de Lucas (3, 1), ao con­tex­tu­a­lizar a missão de Jesus, a situa po­li­ti­ca­mente: “No dé­cimo quinto ano do go­verno de Ti­bério César, sendo Pôncio Pi­latos go­ver­nador da Ju­deia; He­rodes, te­trarca da Ga­li­leia; Fi­lipe, seu irmão, te­trarca da re­gião da Itu­reia e da Tra­co­ní­dite; e Li­sâ­nias, te­trarca de Abi­lene” etc. Até mesmo a Pa­lavra de Deus tem a ver com po­lí­tica, em­bora não se deva con­fes­si­o­na­lizá-la.

Jesus foi as­sas­si­nado por ra­zões po­lí­ticas. Ousou anun­ciar, no reino de César, outro reino pos­sível, o de Deus! Re­chaçou a opressão, a do­ença e a po­breza como cas­tigos di­vinos. Con­denou a re­li­gião como le­gi­ti­ma­dora de pre­con­ceitos e dis­cri­mi­na­ções. E propôs um novo pro­jeto ci­vi­li­za­tório ba­seado nas re­la­ções pes­soais, no amor e na com­paixão; e nas re­la­ções so­ciais, na par­tilha dos bens da Terra e dos frutos do tra­balho hu­mano.

Oito sé­culos antes de Cristo, o pro­feta Isaías já havia pre­fi­gu­rado a utopia de uma so­ci­e­dade na qual a im­plan­tação da jus­tiça as­se­gu­rará o ad­vento da paz: “Vejam! Vou criar novo céu e nova terra. As coisas an­tigas nunca mais serão lem­bradas, nem vol­tarão ao pen­sa­mento. Fi­quem ale­gres! Exul­tarei com Je­ru­salém e me ale­grarei com o meu povo. E nela nunca mais se ou­virá choro ou clamor. Aí não ha­verá mais cri­anças que vivam al­guns dias apenas, nem ve­lhos que não che­guem a com­pletar seus dias; pois será ainda jovem quem morrer com cem anos… Quem cons­truir casa nela ha­bi­tará, e quem plantar vi­nhas co­merá de seus frutos.

Nin­guém cons­truirá para outro morar, nem se­meará para outro comer, porque a vida do meu povo será longa como a das ár­vores, meus es­co­lhidos po­derão gastar o que suas mãos fa­bri­carem. Nin­guém tra­ba­lhará inu­til­mente, nem ge­rará fi­lhos para mor­rerem antes do tempo, porque todos serão a des­cen­dência dos aben­ço­ados de Javé, jun­ta­mente com seus fi­lhos. Antes que me in­vo­quem eu res­pon­derei; quando co­me­çarem a falar, já es­tarei aten­dendo. O lobo e o cor­deiro pas­tarão juntos, o leão co­merá capim junto com o boi… Em todo o meu monte santo nin­guém cau­sará danos ou es­tragos, diz Javé.” (65, 17-25).

Nesta pró­xima se­mana, os bra­si­leiros es­co­lherão seus fu­turos go­vernos es­ta­dual e fe­deral. Eis um di­reito de­mo­crá­tico de subs­tan­cial im­por­tância. Os eleitos ha­verão de fazer o país avançar ou re­tro­ceder ainda mais. Deles de­pen­derão o com­bate ao de­sem­prego e às causas da cri­mi­na­li­dade, a uni­ver­sa­li­zação da edu­cação de qua­li­dade e o fim das in­ter­mi­ná­veis filas nos postos de saúde.

Os po­lí­ticos são con­si­de­rados au­to­ri­dades. Ora, a rigor au­to­ri­dades somos nós, o povo bra­si­leiro, que os ele­gemos, pa­gamos seus sa­lá­rios e todos os gastos do exer­cício de seus man­datos, da conta de luz do Pa­lácio da Al­vo­rada ao com­bus­tível que move o avião pre­si­den­cial.

Sem utopia a po­lí­tica se ape­quena. Torna-se mero jogo de poder em função de am­bi­ções pes­soais e in­te­resses cor­po­ra­tivos. É de suma im­por­tância votar de olho no pro­jeto Brasil. No fu­turo das novas ge­ra­ções. Na con­quista de uma so­ci­e­dade que es­pelhe a pro­posta do pro­feta Isaías, onde o lobo e o cor­deiro, que são di­fe­rentes, não façam da di­fe­rença di­ver­gência, e possam con­viver em har­monia e igual­dade de con­di­ções.

Frei Betto – As­sessor de mo­vi­mentos so­ciais. Autor de 53 li­vros, edi­tados no Brasil e no ex­te­rior, ga­nhou por duas vezes o prêmio Ja­buti (1982, com “Ba­tismo de Sangue”, e 2005, com “Tí­picos Tipos”)

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