13/09/17 Opinião

Retomada da economia: o de cima sobe e o de baixo desce, por Laércio Portela

por Laércio Portela

Um panorama do noticiário econômico nos principais jornais do Brasil nesta terça-feira (12) nos faz entender melhor como funciona e a quem serve o tão onipresente “mercado”. Festejado pela mídia como símbolo da “retomada econômica”, o crescimento de 0,2% do PIB no segundo trimestre já vai deixando seu rastro de desigualdade: o rendimento da classe A, com famílias com renda superior a R$ 17.286,00 mensais, cresceu seis vezes mais do que a média nacional nos primeiros seis meses de 2017, segundo levantamento realizado pela Tendência Consultoria.

Numa outra frente, os analistas do tal “mercado” veem na prisão de Joesley Batista, dono da J&F, um dos principais motivos para o recorde histórico de 74.319 pontos registrado na segunda-feira (11) pelo Ibovespa, o maior desde sua criação em 1968. Com Joesley preso, o “mercado” acredita que ficam reduzidas as chances de uma nova denúncia contra Temer, fortalecendo o governo e sua agenda de ajuste fiscal. A expectativa é de mais ganhos na Bolsa no curto prazo.

Voltando ao levantamento da Tendência Consultoria, o crescimento de 10,3% em termos reais na renda dos mais ricos no primeiro semestre de 2017, em comparação a igual período de 2016, significa mais R$ 2,9 bilhões somados no rendimento do “topo da pirâmide”.

Enquanto isso, a retomada da renda das classes B (0,69%) e C (1,06%) caminha num ritmo bem mais lento. Os mais vulneráveis são os que pagam a maior conta: as classes D e E apresentaram perda de 3,15%. Resumo da ópera: no primeiro semestre deste ano, os mais ricos ficaram mais ricos e os mais pobres ficaram mais pobres, lembrando música de Chico Science: “o de cima sobre e o de baixo desce”.

No jornal Valor Econômico, os economistas Camila Saito e Adriano Pitoli, autores do estudo da Tendência Consultoria, explicam que a recuperação da classe A está relacionada à forma como os mais ricos estão inseridos no mercado. É que um em cada quatro deles é dono de seu próprio negócio e os rendimentos dos patrões estão diretamente ligados ao lucro de suas empresas neste momento de retomada.

“No momento de recuperação, as empresas buscam retomar o padrão histórico de lucro antes de reajustar salários de empregados. Como a renda desses empreendedores se confunde com o lucro das empresas, é natural que cresça primeiro. Outras classes sociais também tiveram, porém, aumento real da renda, ajudados ainda pela acelerada queda da inflação”, afirma Pitoli. Não é o caso dos mais pobres entre os mais pobres.

Se a pobreza cresce e está exposta nas ruas, no mercado financeiro o clima é de otimismo. O abalo institucional entre Procuradoria Geral da República e Supremo Tribunal Federal, causado pelos questionamentos à delação de Joesley Batista, trouxe uma expectativa de estabilidade política para o governo Temer. Liberando-o para atuar com mais firmeza na pauta do ajuste fiscal no Congresso Nacional. “Os mercados que já haviam relegado uma segunda denúncia a segundo plano esperam que o episódio seja resolvido o mais breve possível para permitir ao governo avançar na agenda das reformas. Nesse contexto, tudo indica que os ativos continuarão reagindo positivamente aos fatos, que neste momento são positivos para o Planalto”, avalia Ricardo Gomes da Silva, superintendente da Correparti Corretora de Câmbio, em trecho de relatório publicado pelo O Globo.

Para Luis Gustavo Pereira, estrategista da Guide Investimentos, o otimismo tem a ver com o cenário político e também com o crescimento do PIB no segundo semestre. “Os acontecimentos da última semana foram interpretados pelo mercado como um fortalecimento do governo, o que, de certa forma, fortalece o andamento das reformas econômicas”.

Segundo O Globo, “parte desse otimismo se deve ainda ao fato de que, após dois anos de forte recessão, as empresas conseguirão crescer sem fazer grandes investimentos num primeiro momento e, a cada nova venda ou cliente conquistado, terão uma melhora automática em suas margens de ganho. Isso significa que será mais fácil elevar os lucros, daí a alta das ações. Além disso, os juros mais baixos — a Taxa Selic está em 8,25%, o menor patamar desde julho de 2013 — reduzem os gastos das companhias com suas dívidas e atraem mais investidores para o mercado de renda variável”.

Em entrevista ao Valor, o gerente da Ipsos Public Affairs Brazil, Rupak Patitunda, informa que o consumo das classes A e B já se estabilizou desde novembro do ano passado. O da classe C, em março desse ano. O mesmo não acontece com as classes D e E, cujo consumo continua em queda. “Nas compras de supermercado, as classes A/B têm mais onde cortar gastos. O consumo de essenciais dela é menor proporcionalmente do que nas classes D/E. A partir de agora, pelo padrão de comportamento das crises anteriores, devemos ver alguns produtos voltados ao prazer pessoal voltando a crescer, como chocolate”.

Como se vê, a “retomada econômica” não chegou para todos. A euforia do “mercado” não contagia o Brasil real.

Fonte: Marco Zero

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