08/03/19 Política

Por que o espanto, eleitor?,

por Janio de Freitas/ Jornal GGN

Entre os que produziram a vitória de Jair Bolsonaro nas urnas, não há inocentes, menos ainda deveriam se escandalizar com mensagens sujas compartilhadas pelo atual chefe do Executivo. E isso inclui eleitores evangélicos, das classes médias e ricas, militares e ministro da Justiça.

Os eleitores do presidente Jair Bolsonaro (PSL), ou pelo menos boa parte deles, não deveriam ter se escandalizado com o compartilhamento de um vídeo pornográfico que o chefe do Executivo fez na sua conta pessoal do Twitter. Essa é a avaliação de Janio de Freitas na coluna desta quinta-feira (07), na Folha de S.Paulo.

Na noite de terça-feira (05) de carnaval, Bolsonaro compartilhou um vídeo de três homens dançando em cima de um ponto de táxi, um dele introduziu o dedo no próprio ânus e outro rapaz urinou na sua cabeça. Não se sabe exatamente o que levou um presidente da República a divulgar esse material obsceno, o que se sabe é a repercussão provocando indignação e nojo até mesmo na imprensa estrangeira.

Vale notificar que na manhã da mesma terça-feira, antes da publicação obscena, Bolsonaro usou o Twitter para publicar uma marchinha em resposta à música “Proibido o Carnaval”, de Daniela Mercury e Caetano Veloso, escrevendo: “Dois ‘famosos’ acusam o Governo Jair Bolsonaro de querer acabar com o Carnaval. A verdade é outra: esse tipo de ‘artista’ não mais se locupletará da Lei Rouanet”.

Mas o presidente não parou por aí e, na quarta-feira de cinzas (06), dia em que retomou suas agendas oficiais, publicou no seu perfil: “O que é golden shower?”.

Janio de Freias pondera que as classes média e rica que elegeram Jair Bolsonaro não deveriam estar escandalizadas. Na verdade, com base na mensagem que elas passaram durante as eleições e apoiaram, “o autor da cafajesta tuiteira (…) tem todo o direito de estar, ele sim, com o mais sincero e legítimo espanto”.

O colunista lembra que ao longo de toda a sua vida política e na disputa eleitoral as características de pensamento e “falta de decoro e de educação” de Bolsonaro foram expostas. Leia também: STF mantém decisão que mandou Bolsonaro indenizar Maria do Rosário

“[Agora] Não cabe falar em deselegância, em falta de sensibilidade. Foram três décadas de exibição, bem exposta ao país pela comunicação em geral, até que esse personagem anômalo se revelasse o ideal, político e de governante, das classes média e rica para o Brasil. O direitismo de Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles foi desprezado como insignificância diante do ‘mito’”, reflete Janio.

“E quem, em 30 anos, não teve sequer esse resíduo de informação, na campanha recebeu do candidato uma síntese bastante fiel da sua sedução pela violência, pela morte alheia, pelas palavras e atos moldados no primarismo feroz”, completa.

Por isso, conclui: “não há eleitor ingênuo” e nem “eleitor inocente” que produziram a vitória nas urnas. “Nem mesmo o grande contingente dos evangélicos. Do qual não se sabe se mais usou ou foi usado pela classe rica, na busca de um poder que só compartilham na aparência enquanto afiam as lâminas”, pontua Janio.

O colunista também aponta os militares como responsáveis pelo vexame internacional que o país agora enfrenta. Já se sabia, por exemplo, da formação rasa de Jair Bolsonaro no Exército e do seu histórico de indisciplina e deslealdade dentro da corporação.

Talvez viram em Bolsonaro a possibilidade de comandar o Estado sem a imagem de autoritarismo. Prova disso é que o governo conta com mais de 100 militares em cargos no segundo e terceiro escalão, fora os 8 ministros militares. A questão, entretanto, é como a corporação avalia o novo escândalo provocado por Bolsonaro e sua repercussão internacional.

“É imaginável [ao Exército] que seu pudor profissional, já com muitos hematomas, esteja agora envolto em sentimentos misturados que a perplexidade silencia (…) Aos militares do núcleo de poder há que reconhecer o respeito demonstrado por suas funções, na relação com os cidadãos. Nada de arroubos, nem de exibicionismo. Apesar de daí decorrer, também, o desconhecimento geral do que pensam esses militares, mesmo que só como definições de políticas públicas. E isso inquieta, porque é quase unânime a percepção do péssimo estado do país. E do que alguns ministros já começaram para piorá-lo”, analisa Janio.

O colunista chama atenção também ao que esperar do ministro da Justiça Sérgio Moro, a respeito da “má conduta tuiteira” do presidente. Ainda na quarta-feira de cinzas (06), um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, Miguel Reale Jr, avaliou que a publicação do vídeo obsceno e a postagem de “golden shower” por parte do presidente configuram quebra de decoro e justificaria a abertura de um pedido de impeachment.

Para Janio de Freitas não apenas a área da comunicação, mas o Ministério da Justiça tem a ver com a má conduta recente de Bolsonaro.

“O cargo de ministro pode ser um prêmio, ou retribuição, mas isso não dispensa de deveres. O ex-juiz hoje é tão ministro quanto fugitivo: sempre fugindo de indagações a que não responde porque não disse, nem fez, o que as dispensaria, e era do seu dever”.

“Na casa de Sergio Moro, a vitória de Jair Bolsonaro teve comemoração, levada por sua mulher às redes sociais. Prova de identificação que elimina as hipóteses de encontro com o inesperado, por parte de quem renegou a toga para estar ao lado de quem hoje escandaliza. Moro leva a muitas afirmações de surpresa, entre seus admiradores, mas não pode se surpreender com ‘o mito’”, completa o articulista.

“Jair Bolsonaro encerrou sua mensagem suja com este pedido: ‘Comentem e tirem suas conslusões’ (sic). No que me cabe, pedido atendido”, conclui Janio de Freitas.

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