24/10/18 Opinião

Política da bota: a nova exigência neoliberal

O Brasil corre sério risco de, na próxima semana, eleger um governo notoriamente fascista, e não apenas de extrema-direita como o que se vê nos Estados Unidos, Itália, Polônia e, possivelmente, na França e na Argentina. Um governo sem qualquer respeito às instituições, calcado no discurso militar e na prática da violência.

É o que podemos extrair das declarações de Jair Bolsonaro que, no último domingo, 21 de outubro, bradou que irá “varrer do mapa esses bandidos vermelhos do país”, ou seja, nós. Com todas as letras, o messias do obscurantismo afirmou que “essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia”.

Provavelmente, ante a queda nas pesquisas de intenção de voto, Bolsonaro optou por aprofundar a radicalização, ressuscitando o “ame-o ou deixe-o” dos anos de chumbo, com um discurso essencialmente militar, pelo qual não existem adversários políticos, mas inimigos a serem eliminados. Uma visão totalitária e antidemocrática, referendada pela declaração de outro Bolsonaro, Eduardo, seu filho, que afirmou sobre a Corte Suprema:

“Se quiser fechar o STF você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo, sem querer desmerecer o soldado e o cabo (…) O STF vai ter que pagar pra ver. E se pagar para ver, vai ser ele contra nós (…) Será que eles vão ter essa força mesmo? (…) Se você prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular a favor dos ministros do STF?”, perguntou à plateia. “Milhões na rua, solta o Gilmar! Solta o Gilmar!”.

Querem mais desmoralização que isso?

Apoiado pelos generais da reserva e visto com desconfiança pelos da ativa, Bolsonaro arranjou sua aposentadoria aos 33 anos, para não ser expulso por conta de vários problemas disciplinares. É nas mãos desse cidadão que o Brasil poderá se tornar um experimento fascista no coração da América Latina, mudando completamente a concepção de política que tínhamos até agora.

O que fizeram com João Dória, candidato ao governo de São Paulo, que tentou, mas não conseguiu ser recebido por Bolsonaro, apenas evidencia a mudança do nosso modelo político para uma espécie de política da bota, regida pelos ritos de contínua humilhação da hierarquia militar e da obediência cega ao líder supremo. Quem quiser apoio, terá de se ajoelhar no milho e jurar fidelidade eterna.

O desrespeito às instituições democráticas é o modus operandi dessa política da bota que visa submeter a todos – partidos, parlamentares em geral, sindicalistas, estudantes, movimentos sociais, inclusive o Judiciário – e fazer do Brasil um experimento para a disseminação de governos fascistas pela América Latina. De mãos dadas com Paulo Guedes, Jair Bolsonaro bate continência à bandeira norte-americana e tem Donald Trump como seu líder.

Frente à crise de 2008, Barack Obama não conseguiu responder a todas as propostas que encaminhou, contribuindo inclusive com o crescimento vertiginoso da China que recebeu várias empresas norte-americanas. Enquanto o Brasil emergia com um modelo completamente diferente de governo, apoiado no investimento público e políticas sociais, criando um cinturão de proteção social, que nos levou, com Lula, a enfrentar a crise. Parece inacreditável, mas esse mesmo modelo considerado vitorioso em todo mundo foi vilipendiado pelos golpistas.

Com o slogan “América para os Americanos” e uma campanha calcada em fake news, como as que vemos hoje no país, Trump assumiu o governo da ainda maior potência mundial, com o discurso de que todos teriam de se enquadrar. Ignorando o Brasil, de forma vergonhosa para Temer e cia., elegeu a Argentina como sua principal interlocutora por conta de suas ligações com a família Macri, tornando a relação Norte-Sul uma conexão entre Washington-Buenos Aires.

Agora que amargou a vitória de Obrador no México, um social-democrata, Trump poderá ter, como interlocutor de sua política para as Américas, a figura estapafúrdia de Jair Bolsonaro enquanto, obviamente, se ele tiver viabilidade, afinal, Tio Sam não se alia com perdedores.

Estamos diante de uma mudança radical do modelo político brasileiro, vide o que vem acontecendo com caciques políticos como Romero Jucá, Cassio Cunha Lima, Magno Malta, Geraldo Alckmin, José Serra, Aécio Neves, Aloisio Nunes. Levando, inclusive, à derrota eleitoral dos filhos de Cabral, Cunha e Roberto Jefferson; e de figuras tradicionais da política brasileira como Cesar Maia, Cristovam Buarque, Beto Richa, Edson Lobão, família Sarney, Marconi Perillo, Eunicio de Oliveira e tantos outros.

Em relação aos campos de esquerda e progressistas, não há novidades. Bolsonaro quer a extinção da esquerda, do PT, do PSOL, PCdoB, PSTU, PCO, dos movimentos sociais e sindicatos. E a submissão cega das forças de segurança e do próprio Judiciário. Se desde 2016, vivemos sob a ditadura da toga, agora passaremos à ditadura da bota que não deixará a imprensa tão à vontade como ela espera. O feitiço voltou contra o feiticeiro. “Imprensa livre, parabéns; imprensa vendida, meus pêsames”, disse Bolsonaro.

A democracia agoniza e, estarrecidos, descobrimos como ela é ainda um valor distante da população brasileira. Eleitores em torno dos 40 anos hoje, não passavam de crianças em 1980. A grande maioria, como demonstra o voto em Bolsonaro, cresceu alheia ao significado da luta democrática, o que demonstra o quanto deveríamos ter radicalizado a questão da democracia, criando um clima de nacionalidade, de brasilidade, de respeito às leis.

Ao longo desses 33 anos de redemocratização, nós passamos pela morte de Tancredo e pelo governo Sarney que não foi escolhido pelo povo; foram dois anos do Caçador de Marajás seguido por mais dois de Itamar Franco; tivemos oito anos de neoliberalismo do príncipe dos sociólogos; e 13 dos governos Lula e Dilma, 1/3 apenas desse longo período de redemocratização fortemente ameaçado de interrupção.

Com um discurso abstrato, sem defender a reforma trabalhista, sequer o petróleo e as terras brasileiras, Bolsonaro conquista o apoio da classe média, em especial, a classe média alta. Aquela que não terá sua vida alterada. Continuará indo para a Miami, comprando seus imóveis e veículos, colocando seus filhos nas escolas privadas e se tiver de pagar a USP, qual o problema?

Pessoas totalmente alheias aos valores democráticos que compreendem democracia simplesmente como o direito de votar neste ou naquele candidato. Afinal, se 73% defendessem a democracia, como aponta o Datafolha, Bolsonaro jamais passaria do primeiro turno. Daí a gravidade da esquiva do Judiciário no último domingo ante o caixa dois revelado pela Folha de S. Paulo.

Um Judiciário fraco, desmoralizado, incapaz de fazer valer a lei e de garantir condições igualitárias na disputa eleitoral. Deixaram, mais uma vez, de cumprir o seu dever constitucional, permitindo que milhões de brasileiros caíssem na fala oca do fascismo que recusa o debate, incita à violência e se baseia na construção de inimigos internos, como os “vermelhos”, os “comunistas”, os “petralhas”. Sejamos sinceros, nem o governo do Partido Comunista do Brasil, de Flávio Dino no Maranhão, pode ser chamado de governo comunista, o que dirá dos governos petistas…

Essa desconstrução da política que teve apoio da grande imprensa, notadamente das Organizações Globo, continua. Fosse um veículo comprometido com a democracia, a Rede Globo deveria garantir a Fernando Haddad pelo menos metade do tempo de debate. Quando Bolsonaro se nega a debater, ele está impedindo também que o outro fale. Deveria, portanto, arcar com as consequências das suas decisões. E o que dizer do comportamento da Rede Record que, enquanto acontecia o debate no primeiro turno, no mesmo horário, optou por uma exclusiva com Bolsonaro?

Não vamos evitar esse problema com discussões nas redes sociais. Precisamos fortalecer a Mídia Alternativa com recursos para que ela possa fazer o debate adequado junto à sociedade no próximo ano. Quem irá criticar, de uma forma correta, o governo Haddad? Ou, no pior dos casos, fazer críticas ao governo fascista de Jair Bolsonaro?

O 28 de outubro poderá marcar uma mudança de era na política brasileira. Dependendo do resultado, podemos passar a enfrentar um novo tipo de fazer política no Brasil, a política da bota. Para enfrentá-la teremos de ter argumentos sólidos e não apenas textos de WhatsApp e Facebook. As pessoas precisam entender o que acontece no mundo. O que estamos passando no Brasil não é uma política isolada, estamos a um passo de uma mudança profunda na política latino-americana e mundial. O neoliberalismo expulsou a democracia.

Joaquim Ernesto Palhares Diretor da Carta Maior

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