28/06/17 Opinião

O risco Bolsonaro: o poder do discurso de ódio

Os afetos são fundamentais na política. Quem inaugurou essa relação foi Hobbes com o Leviatã, que tratou do medo como uma espécie de “cola social” em oposição ao estado de “todos contra todos”. O medo da desordem estaria em latência, o que justificaria o poder absoluto do Estado soberano sob o monopólio da violência. Depois foi Spinoza quem previu que, se o medo é “uma tristeza instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida” (2013, p.144), ele não poderia aparecer sozinho. A esperança, uma alegria surgida de uma ideia futura, surge como seria seu par óbvio. Medo e esperança, dois afetos que ainda hoje desempenham forte influência na relação entre sociedade e seus governantes.

Trump e a extrema direita que cresceu em alguns lugares da Europa são exemplos inegáveis de como esses medos são articulados em discursos políticos. Lá a retórica predominante se baseia na “ameaça terrorista” e no medo do imigrante, um sintoma que ocupa o lugar do medo da concorrência generalizada no capitalismo contemporâneo. Aqui no Brasil a lógica se dá de forma diferente. Num país com cerca de 60 mil assassinatos por ano, onde 50 milhões de pessoas com mais de 16 anos tinham parentes ou conhecidos que foram assassinados e que mais recentemente assistiu a cenas de barbárie nos presídios brasileiro somada ao completo despreparo do Estado em lidar com a situação, não é difícil concluir que a insegurança é fator estruturante da sociedade brasileira. A aceitação de boa parcela da população às ações que ocorreram na Cracolândia é sinal de que medidas excepcionais são justificadas em situações extremas. Uma porta aberta, e larga, para o discurso de ódio, de punição, numa lógica de privação do Outro que supostamente inibe ou mesmo rouba meu gozo. A gentrificação crescente e o sucesso das empresas de segurança são evidencias desse medo.

Uma pesquisa recente do Data Folha e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública – divulgada aqui – constatou que para 69% dos brasileiros adultos, “o que este país precisa necessita, principalmente, antes de leis ou planos políticos, é de alguns líderes valentes, incansáveis e dedicados em que o povo possa depositar a sua fé”. Se considerar aqueles que concordam em partes com a frase o percentual sobe para 85%. Tudo fica ainda mais preocupante quando sabemos que essa frase é a tradução de umas das perguntas do conhecido estudo de Theodor Adorno, de 1950, sobre o autoritarismo. Na época, o filósofo tentava entender o sucesso do nazismo.

Ainda que seja difícil provar a afetividade das conclusões, Freud já dizia em Psicologia das massas que:

Como a massa não tem dúvidas quanto ao que é verdadeiro ou falso, e tem consciência da sua enorme força, ela é, ao mesmo tempo, intolerante e crente na autoridade. Ela respeita a força, e deixa-se influenciar apenas moderadamente pela bondade, que para ela é uma espécie de fraqueza. O que ela exige de seus heróis é fortaleza, até mesmo violência. Quer ser dominada e oprimida, quer temer os seus senhores. No fundo inteiramente conservadora, tem profunda aversão a todos os progressos e inovações, e ilimitada reverência pela tradição. (FREUD, 2011, p.27)

As necessidades da massa a tornam receptiva ao líder, mas esse precisa corresponder a ela com suas características pessoais. Ele próprio tem que estar fascinado por uma forte crença (numa ideia), para despertar crença na massa. (Idem, p.30)

Na mesma pesquisa do Data Folha, 60% dos brasileiros adultos concordam com a frase: “a maioria de nossos problemas sociais estaria resolvida se pudéssemos nos livrar das pessoas imorais, dos marginais e dos pervertidos”. E 81% concordam que “a obediência e o respeito à autoridade são as principais virtudes que devemos ensinar a nossas crianças”. Tanto Adorno quanto Freud pensavam nos regimes autoritários do nazismo e do fascismo. Tendência que pelas respostas dessa pesquisa ainda sobrevivem, ainda que com uma nova roupagem e modo de divulga-las em massa.

Jair Messias Bolsonaro. Parece providencial demais que nosso representante brasileiro de maior renome do autoritarismo atenda também por “Messias”, o salvador bíblico. O político mais popular da internet, com 4,3 milhões de seguidores, tem facilidade para falar com parcela significativa da população, sobretudo essa amostra que tratou a pesquisa, que também identificou: 64% da população brasileira adulta que declara que “todos devemos ter fé absoluta em um poder sobrenatural, cujas decisões devemos acatar”, e 53% que concordam que “o policial é um guerreiro de Deus para impor a ordem e proteger as pessoas de bem”. É preciso acrescentar nessa conta a completa descrença de boa parte da população com a política, que a cada diz nos apresenta um escândalo novo.

Não devemos subestimá-lo. E ainda mais importante, devemos apresentar alternativas ao seu discurso e a sua linguagem. Tão importante quanto “o que dizer” está “como dizer”. O rechaço, tentar diminuí-lo, tratá-lo de fascista, racista ou machista não basta. Precisamos entender o motivo de sua ascensão e apresentar alternativas a sua candidatura, que responda às aspirações de seus possíveis eleitores. Acirrar a disputa e simplificar a crítica é um erro que pode custar muito caro e causar um atraso de anos em nosso relógio histórico. É preciso um esforço sensível para responder às demandas do presente. É preciso criar outro sentido do possível. E não há outro terreno para isso senão o encontro, o diálogo amplo e democrático.

por Pedro Veríssimo

Fonte: Carta Capital

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