11/12/17 Economia

“O neoliberalismo não só reduz proteções como cria sofrimento para aumentar a produtividade”

Por Glauco Faria

 

“Não mais o medo e a inveja, e sim o ódio e de certa forma o ressentimento que se tornaram a moeda básica para se falar nas diferentes gramáticas de sofrimento no Brasil.” Essa é uma as ponderações do psicanalista e professor da Universidade de São Paulo Christian Dunker sobre o momento atual do país. Ele concedeu entrevista à RBA e também abordou temas como a infantilização dos comportamentos no debate público e a passividade de parte da sociedade diante da retirada de direitos.

“A gente tem vergonha de ser enganado. De ter entrado em uma ‘conversinha’ e depois perceber que em nome da redução da corrupção, um princípio do qual ninguém diverge, fomos levados a decisões altamente contrárias ao que as pessoas comuns pensam”, avalia Dunker.

Segundo ele, já tivemos um “neoliberalismo mitigado” em outros períodos, mas a Era Temer inicia uma forma generalizada, onde o chamado princípio geral não está mais em discussão. “E o princípio geral é muito interessante porque podemos pensar o neoliberalismo como uma gestão premeditada do sofrimento”, afirma.

Confira abaixo a entrevista.

Queria começar pelo seu livro mais recente, Reinvenção da Intimidade – Políticas do Sofrimento Cotidiano, que parte da premissa de que o sofrimento, embora vivido no sujeito, requer e propaga uma política. Como podemos usar esse conceito para ajudar a explicar, por exemplo, a situação política do Brasil hoje?

Esse trabalho dá continuidade a Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros, onde tentei usar a noção de sofrimento para pensar um período mais amplo de formação da subjetividade no Brasil, notadamente a partir do pós-ditadura. Esse trabalho, Reinvenção da Intimidade, volta à noção do sofrimento, uma noção dependente dos dispositivos de reconhecimento, e aí contamos o Estado, aparelho jurídico, imprensa, até o reconhecimento pela comunidade, e as formas discursivas do reconhecimento. As narrativas de sofrimento têm a ver com decisões políticas de quem queremos reconhecer e como, qual tipo de sofrimento queremos dar visibilidade e qual queremos tornar invisível.

Acho que a questão fundamental desse novo livro é a ideia de que há formas de sofrimento que geram uma transformação, de si ou do outro, de si ou do mundo, e há formas de sofrimento que mantêm as coisas como elas estão. Indo para uma questão mais específica, temos uma mutação de afetos ligados ao sofrimento, não mais o medo e a inveja, e sim o ódio e de certa forma o ressentimento que se tornaram a moeda básica para se falar nas diferentes gramáticas de sofrimento no Brasil.

Quando você fala em duas formas de sofrimento, uma que transforma e outra que contribui para a estagnação, como é possível identificar uma e outra?

Vamos pensar na narrativa do romance. O romance clássico é uma investigação sobre causas, partilhada, coletiva, entre leitor, escritor e sua época, sobre qual é o regime de causalidade vigente naquele processo transformativo. A identidade do mundo, da pessoa, requer um trabalho para se manter, não é estática. Se você parar de fazer isso o mundo desmonta, a gente desmonta também, e às vezes acontece. Por exemplo, processos depressivos ou de pânico, angústia estão marcados por eu não conseguir contar mais a minha história, ela parece postiça, desatualizada, não chega mais no outro que quero que reconheça essa história.

Histórias transformativas têm esse sabor de novidade, tentam trazer uma certa consonância com uma interpretação do nosso tempo, do tempo em que aquela forma de sofrer está se sucedendo. Não posso dizer assim “isso está acontecendo porque Deus quis”. Isso é uma narrativa um pouco antiga. Dessa maneira, se uma coisa acontece porque Deus ou a natureza ou porque forças ocultas quiseram, qual a chance de eu interferir nesse processo? Muito pouca. O que vou ter que fazer é convocar uma narrativa que vai provocar em mim um processo de aceitação. O que às vezes é muito importante, ter um ponto que estabelece politicamente aquilo que a gente pode e quer aceitar.

Um sofrimento que desencadeia processos transformativos é aquele que envolve um certo enigma em relação à causalidade, não sabemos porque as coisas estão desse jeito, então podemos propor novas versões de mundo e novas versões de nós mesmos. E nesse processo inventamos outros mundos, outros nós mesmos e outras formas de sofrer.

Esses sofrimentos, desse ponto de vista, se relacionam com a nossa própria identidade e a forma com que partilhamos isso. Como hoje, na sociedade brasileira, temos uma parcela da população tão refratária a compartilhar sofrimentos de segmentos sociais como as diversas minorias excluídas de direitos?

Temos uma coisa que (Jacques) Lacan chama de tempo lógico. Em dados momentos percebemos nosso atraso. Como deveríamos ter feitos coisas lá atrás e não fizemos, e agora a conta chega e chega duplamente. Como uma atualização, mas também com o passivo que ficou atrás. Por muito tempo fomos complacentes com retóricas como a de que o negro ganhar menos não é uma fonte de sofrimento, tem motivos históricos, sempre foi assim… Ou o fato de nos relacionarmos com o sofrimento da mulher e dizer tem que ela tem que ficar quieta e calada, se virar sozinha, aceitar certos modos de violência. Isso foi se instituindo por tempo demais e agora temos uma espécie de onda retida que vai dizer: “olha, precisamos ajustar as contas com isso”.

Vale também para o homem, com aquilo de que homem não chora, é viril, lida com seus problemas sozinho, não admite pedir ajuda… Isso é uma questão de saúde pública, os homens não procuram o médico e aderem a um tratamento porque existe uma forma de sofrer masculina que rejeita, por exemplo, o exame de próstata porque vai ofender sua virilidade. Coisas ridículas que têm a ver com o atraso nas modalidades de sofrimento ligadas à condição de raça e de gênero.

E temos ainda um passivo muito forte relacionado ao sofrimento etário. A sensibilidade que temos com o sofrimento da criança é muito curiosa no Brasil. Por um lado, somos super sensíveis, “em nome da criança o Brasil vai se transformar, o berço esplêndido etc”, por outro lado, objetivamente deixamos crianças em estado de sofrimento por falta de alimentação, por falta de educação, por falta de cuidados básicos. Esse discurso não transformativo sobre o sofrimento da criança tem a ver com inações políticas. Portanto, precisamos escutar o sofrimento de nossas crianças de maneira diferente, e temos que fazer o mesmo com as pessoas da terceira idade.

O decisivo para o próximo ano, que vai ser agudo, é o sofrimento de classe. As interpretações que temos sobre o sofrimento de classe estão anacrônicas. O Brasil realmente se transformou, teve uma mobilidade social muito intensa, depois uma regressão violentíssima e estamos em um momento de anomia porque não sabemos o que fazer com o sofrimento de classe. Quem melhor está capitaneando isso não são os partidos, mas as religiões, que estão organizando de uma maneira – para o bem e para o mal – a insuflar mais ódio ou mais temperança e reconciliação em torno dessa mobilidade social que ainda foi incompreendida no Brasil.

Você falou dessa questão dos sofrimentos distintos e, em relação ao sofrimento da terceira idade, por exemplo, me remeteu a uma novela da Globo em que a neta tratava mal os avós durante toda a história. No final, seu pai a agride fisicamente em função disso e as pessoas vibram. Ou seja, a situação é resolvida com violência. O brasileiro está acostumado a enxergar a violência, de todos os tipos, como solução de uma forma geral?

É uma solução prêt-à-porter, que está à mão, quando não sabemos qual a causa do problema, recorremos à violência.

O exemplo é ótimo. Primeiro, porque fala de como as novelas no Brasil têm um papel fundamental na fixação de nossas narrativas de sofrimento. Daí a importância, mesmo que a gente vá criticar e ponderar, quando temos alguém com Síndrome de Down em uma novela, ou um transgênero, ou a situação da terceira idade, porque isso exemplifica o meu argumento de que a gente olha para aquilo e pensa: “nossa, mas essa pessoa sofre, nunca tinha pensado nisso”. Enxerga o que não se via antes.

Voltando para o ponto crucial, o que acontece quando nossas narrativas de sofrimento ficam muito simplórias, do tipo carrascos e vítimas? É a pulverização de nossas modalidades de sofrimento como se conseguíssemos reconhecer apenas uma por vez, como se fossem excludentes e concorrendo entre si. E o capitalismo por todos, o universal devorando a todos.

Essa impossibilidade de a gente se reconciliar e compor discursos comuns, não só narrativas, mas entroncamentos de narrativas que se associam, se compõem, é urgente para definir o que vai ser o Brasil depois de 2018.

Fizemos uma entrevista com o professor de Direito Constitucional Geraldo Prado que disse, em alusão a alguns atores da Operação Lava-Jato, mas não só a eles, que “na ficção infantil não existem resultados irreversíveis, justamente porque é uma ficção; na vida como ela é, em que as instituições funcionam, em que as pessoas atuam, em que uma decisão de prisão vai ser cumprida e uma pessoa vai ser encarcerada, não existe ressuscitar depois da morte como no jogo infantil.”

Ou seja, um dia na prisão, que seja, é algo irreversível e se torna uma mácula, como vimos no caso do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina Luiz Carlos Cancellier. Você vê uma sociedade brasileira hoje infantilizada, como se as pessoas encarassem às vezes a realidade como se fosse um filme ou videogame?

O exemplo da Lava-Jato é interessante porque acusa a ridícula simplicidade, a mediocridade com a qual lemos problemas complexos como a corrupção no país, a decadência da representatividade, do registro político. Para lidar com cenários altamente complexos como esses – e opacos, as pessoas não conseguem entender como funciona o poder – recorre-se a narrativas do tipo tem mocinhos e bandidos. De que lado você fica, petralhas ou coxinhas?

É incrível como essas narrativas simplificadoras pegaram carona na linguagem digital, que agora compreende essa participação massiva dessas pessoas que estavam excluídas, que não se sentiam produtoras das narrativas de sofrimento, apenas reprodutoras, e agora se sentem compartilhando. Quando há um número muito grande e muito novo de pessoas e questões altamente complexas em que se você fala mais de três parágrafos vira um “textão”, ninguém vai ler, se torna invisível, vira um afunilamento para dicotomias, para um emburrecimento, uma perda de qualidade discursiva que é o próximo desafio que temos pela frente.

Uma pesquisa recente mostrou que havia uma diferença grande no percentual de eleitores de Jair Bolsonaro entre aqueles que tinham acesso à internet, onde ele obtinha maiores índices, e os que não tinham. É possível inferir também que essas novas linguagens amplificam um segmento que talvez seja menor do que se imagina ou que as redes sociais, por exemplo, estimulam todo um discurso em torno do ódio?

Estimulam, mas, diria assim, sem demonizar essa nova linguagem, ressaltando que ela é nova, ensina a gente a tomar posição, a amar, a pensar politicamente, ensina a gente a sofrer. A disputa pela existência na rede, como lugar de reconhecimento acaba provocando uma redução do conflito a posições muito simples onde todo mundo pode reiniciar a conversa e se posicionar. Narrativas muito simples de sofrimento historicamente tendem ao conservadorismo, à segregação, ao preconceito, à simplificação dos processos de reconhecimento, narrativos e de transitivismo.

Aqueles que não estão na rede estão divididos em dois subgrupos. Os leitores clássicos, bem informados, e os antigos excluídos, que estavam excluídos de toda informação, e aí o que vale são as narrativas comunitárias, que em um certo sentido são mais complexas do que a que temos nas redes, porque são capazes de manter um pouco mais de estoicidade, de diversidade.

E no caso, por exemplo, dos haters da internet, quando se defrontam pessoalmente com alguém que escolheram odiar, muitas vezes não conseguem reproduzir o mesmo comportamento praticado nas redes sociais. Isso não seria, talvez, não por simples covardia, mas por ser muito mais fácil odiar um perfil ou um personagem do que alguém de carne e osso, ali na sua frente?

É um fenômeno conhecido, uma relação inversa que a gente tem entre a paranoia projetiva, de pegar um perfil, um estereótipo, uma imagem, e depositar ali todos os nossos fantasmas. O que não consigo admitir em mim, coloco nesse demônio, projeto nesse outro que representa o grande mal. É o esquema, por exemplo, da homofobia: não aguento minhas próprias fantasias homossexuais e começo a inventar, projetar coisas naqueles que acho que são homossexuais.

Essa paranoia trivial, sistêmica, que vemos também nas instituições, tem um tratamento que é simples, mas não operacional, que é a pessoalidade. Você chega com aquele seu monstro criado em seu condomínio privado e coloca para conversar com um petista real, um negro real, um homossexual real e a pessoa vai dizer: “não, mas não é com você que estou falando”. Inclusive muitos preconceituosos se defendem do seu preconceito dizendo exatamente isso, “eu tenho uma empregada doméstica, que adoro, e ela é negra, não posso ser racista”. Porque não tem a ver com a relação pessoal, tem a ver com a forma como lidamos com o outro impessoalmente.

“Ah, mas então é um mundo de ilusões.” É verdade, mas são ilusões extremamente perigosas porque a partir de determinado momento elas começam a tornar esse inimigo imaginário real. Se você tratar um negro que você vê na rua de uma forma segregatória, mesmo que em silêncio, em pequenos gestos, o que vai acontecer? Ele vai sentir isso e começar a responder. De forma justa. Daí se fecha um ciclo de projeção e reação à projeção que gera o caos que vivemos no momento.

E o silêncio em determinados momentos como quando um coronel da PM de São Paulo diz que trata as pessoas de forma diferente nos Jardins e na periferia, e as pessoas dos Jardins não se manifestam em relação a algo que devem julgar como natural, quem mora da periferia em um motivo concreto para odiar alguém dos Jardins…

Exato. Vai-se dualizando e segmentando nossas relações de ódio projetivo ao ponto de no final voltar a uma situação de solidão, de isolamento, de fragmentação, de perda de qualquer relação de pessoalidade e intimidade com o outro. Isso é extremamente perigoso do ponto de vista político, mas também do ponto de vista clínico. Depois de um tempo há uma epidemia de depressão, de pânico, de sofrimento, por exemplo, que se discute muito hoje na escola e nas universidades, com índices crescentes de suicídio, de abandono de se estar dentro de uma sala de aula. Por quê? Por onde está entrando o gás venenoso? É isso que nos atinge a todos enquanto uma experiência de perda do comum, uma experiência de, digamos, industrialização e operacionalização do sofrimento.

O policial que diz isso está dizendo indiretamente: com o sofrimento da periferia, lido de um jeito; com o do Jardins, de outro. O cidadão da periferia vai dizer: esse cara dos Jardins é meu inimigo, porque o meu sofrimento concorre com o dele, para onde vai a polícia, o dinheiro, a proteção. Armou-se a guerra e depois vão ser colhidos os frutos da administração dessas modalidades de sofrimento.

Dentro do seu conceito da lógica de condomínio que impera no Brasil, ela retroalimenta a cultura de ódio das redes sociais, uma fomenta a outra?

Nesse ponto faria uma revisão do meu livro anterior. Esse trabalho no fundo é um estudo sobre a degradação, sobre a ineficácia e inadequação da cultura do condomínio. Porque quando você estava no condomínio, você acreditava no muro, o muro o defende, se tem dinheiro, está tranquilo, tem suas câmeras, seus sistemas de segurança… Agora, as pessoas do condomínio não estão tranquilas, seja pelo universo virtual, pela convulsão que tomou conta das famílias, por outras modalidades de identidade que estão em jogo nessa nova conversa, que não é mais sobre quem está fora ou dentro do condomínio. O condomínio se tornou uma estrutura arcaica, que não dá mais conta da nossa realidade social.

Não adianta mais, com seu inimigo ou com aquele que você projeta sua impotência e irrelevância, colocar um muro entre você e ele. A coisa chega pelo ar, pela rua…

Essas diversas formas de violência física, simbólica, que temos hoje mostram a ineficácia dos muros.

Não dão conta, mas as pessoas constroem muros. Estivemos em uma intervenção clínica em Belo Monte, com os refugiados da construção da barragem, os ribeirinhos, e foi muito impactante. A pessoa que sai de uma ilha, dentro do rio Xingu, que tinha um modo de vida de coleta, de pesca, é desalojada brutalmente pelo Estado e vai para um assentamento urbano e não sabe mais quem é seu vizinho da frente. O que ela faz? Constrói um muro. Investe nesse negócio apesar de ele não estar funcionando.

E o fato de não haver mais o sentido de comunidade piora essa situação.

Piora. Mas o sentido de comunidade pode ter uma inflexão meio conservadora. Então qual é a solução? Vamos voltar à noção de família, de bairro…

E prosperam porque isso se mostra eficaz de alguma maneira. Precisamos inclusive reinventar a interpretação do que é religiosidade no Brasil. Não é mais o esquema clássico de religiões afrodescendentes, espiritismo para a classe média, catolicismo com suas diferentes variedades como ponto de unificação… Não funciona mais. Entre outras coisas porque estamos às voltas com outro tipo de comunidade, de comunitarismo, outro tipo de experiência do comum.

E, para contrabalançar o que tinha dito antes, aí a linguagem digital é extremamente potente. Porque ela cria realmente comunidades virtuais que têm efeitos reais nunca antes vistos. Só que isso implica a gente pensar outra maneira de possuir coisas, especialmente simbólicas, de partilhar essas mesmas coisas, que estão sendo pesquisadas, inventadas, não apenas pelas religiões, mas também por outras formas de estar junto.

Entrevistei há alguns anos o falecido psicanalista José Ângelo Gaiarsa e ele dizia que por cinquenta dos, àquela altura, 82 anos dele, de 6 a 8 horas por dia só ouviu queixas familiares em seu consultório, falando que a família era muito falada, mas muito mal cuidada. Hoje, com essas novas tecnologias, o trabalho também não ocupa um lugar, se não semelhante, próximo também como causador de sofrimento e males psíquicos?

Temos uma hipótese com a qual estamos trabalhando há dois, três anos no Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, de que há uma mutação de política de sofrimento ligada ao neoliberalismo, pensando o neoliberalismo como um momento específico do nosso modo de trabalhar, de gerir a produção e o consumo, que nasceu nos anos 1970 e 1980 e está chegando e se estabelecendo mais amplamente no Brasil agora. Já tivemos “namoros”, impasses, um neoliberalismo mitigado, mas a Era Temer inicia um neoliberalismo generalizado, onde o princípio geral não está mais em discussão.

E o princípio geral é muito interessante porque podemos pensar o neoliberalismo como uma gestão premedita do sofrimento. É o caso do Jack Welch, 10% dos funcionários de uma empresa vão ser demitidos. O que você cria com isso? Medo. Sofrimento dentro do trabalho, porque com esse sofrimento você faz as pessoas produzirem mais. Isso as leva para um estado de impotência a longo prazo, mas a curto prazo faz tirarem de si mais do que conseguiriam em estado normal de pressão e temperatura, em um Estado de Bem Estar Social.

O sofrimento faz mal para o trabalho. O neoliberalismo não só reduz as proteções mas descobre que pode criar premeditadamente sofrimento para aumentar a produtividade das pessoas. Isso tem a ver com trabalho intermitente, desregulamentado, inclusive com ideais sociais de conseguir trabalhar e se engajar em profissões, empresas, que tenham políticas alternativas para isso. Os nossos garotos estão ponderando muito entre se querem trabalhar em um regime de sofrimento gerenciado ou em um trabalho em que vão ganhar menos, mas conseguir ter mais realização pessoal, falar, serem reconhecidos, e isso está atingindo o neoliberalismo por dentro.

O sistema em que você faz a pessoa sofrer para vinculá-la ao trabalho tem limites e se aplica melhor a quem está fora, está excluído, despossuído, que no Brasil é o trabalhador de call center, do Uber, em um segundo sentido, que é quem vai ser explorado ao máximo, porque vai entregar sua força de trabalho, sua força de sofrimento, e vai ser explorado até o fim e depois trocado por outro grupo de pessoas. Quanto mais baixo você está na escala laboral, mais exposto vai ficar à pasteurização do seu sofrimento pelos novos regimes de produtividade.

Isso é uma loucura, é autodestrutivo e gera aumento de sofrimento sintomático, transtornos mentais e tudo o que Lacan chamou e analisou a partir da ideia do “mais de gozar”, produzindo uma civilização de adictos.

Tivemos a reforma trabalhista, antes a lei da terceirização, uma série de direitos retirados ou ameaçados e a discussão em torno de uma reforma da Previdência. Todas essas medidas altamente rejeitadas pela população, como mostram as pesquisas, e vindas de um governo, segundo os mesmos levantamentos, tido como o mais impopular da história. Como explicar a passividade das pessoas diante disso?

Boa pergunta. Vergonha. A gente tem vergonha de ser enganado. De ter entrado em uma “conversinha” e depois perceber que em nome da redução da corrupção, um princípio do qual ninguém diverge, fomos levados a decisões altamente contrárias ao que as pessoas comuns pensam.

O que acontece quando a gente é enganado? A gente sente vergonha. E a vergonha é um afeto extremamente transformativo, potente, muito mais potente que a culpa porque a culpa você faz a penitência e pode pecar de novo. A vergonha paralisa. Inibe. Diz assim: “não vou voltar mais lá, não quero saber desse assunto, não quero opinar sobre esse ponto, não quero mais saber de política”… É o que está acontecendo. Você entrega a coisa para a barbárie. Há um sentimento – e a gente escuta isso no divã, na cultura – de uma coisa impronunciável. O que a pessoa vai dizer? Vestiu a camisa da seleção, bateu panelas… E não são idiotas. Não são pessoas de má-fé, mas estavam acreditando no que estavam fazendo e no momento seguinte percebem que seu tio perdeu o emprego, sua filha não tem mais educação, que não vai mais se aposentar, e o que a pessoa vai dizer? “Ah, fui enganado, estou com vergonha disso.”

Muito difícil, especialmente no Brasil praticar este ato simbólico. A gente passa anos para tentar fazer uma pessoa aprender isso, que é voltar atrás. “Olha, eu pensava de um jeito e agora penso de outro, e sim, me deixei levar”. Você não é um idiota porque volta atrás, porque pede desculpas, mas no Brasil inventamos esse jeito e a vergonha, em vez de me reposicionar, fazer com que me reinvente, produz inibição, silenciamento, passividade, faz com que as pessoas se retirem da conversa e não que permaneçam com outra posição.

Isso vale tanto para a direita como para a esquerda, e durante anos boa parte dela olhava para o que estava acontecendo e dizia que não estava, mas vamos apoiar. Essa vergonha acumulada implica em descrença, dificuldade de implicação…

E uma das piores atitudes, até do ponto de vista psicanalítico provavelmente, é um outro chegar para essa pessoa, envergonhada, apontar o dedo e dizer “eu não falei?”

Aí o que acontece é a realização da fantasia do envergonhado. O outro está gozando da sua vergonha, daquilo que você mesmo não faria de novo hoje. Como vai se fazer uma reconciliação sem que isso seja tipicamente vivido como o Brasil faz, com o apagamento de conflitos?

Para fazer as pazes vamos ter que negar o conflito e aí não vai acontecer nada de novo, o que é um pouco a história do Brasil, desde a redemocratização.

Quando conversamos anteriormente, em 2015, você disse que parte dos fatores que explicava o início da crise política foi o fato de não se fazer o luto da derrota. E uma das maneiras de não fazer o trabalho do luto é suprimir os afetos, que resultaram nessa onda de ódio. Depois do impeachment, você acha que isso pode se repetir em 2018?

Acho que essa hipótese é ainda mais pertinente, mas o luto é de outro lado. A esquerda tem que fazer o luto. O luto de não ter se posicionado, ter corroborado com certas coisas, estamos unidos por uma espécie de perda dos dois lados que no fundo é a perda do Brasil, do que tínhamos em mente, seja de um lado, seja de outro.

Freud descrevia o luto em três tempos. Primeiro, você tem que admitir que perdeu. Segundo, é preciso pesquisar o que se foi com a perda, o que foi embora com essa pessoa que me deixou, quais os traços, experiências, memória. Depois desse trabalho, você vai comprimindo, reduzindo a coisa, até que um pedacinho daquilo que foi perdido se integra dentro de você. E então segue a vida com aquela lembrança daquilo que você deixou para trás.

O que acontece quando a gente, primeiro, não admite que perdeu, não se dá ao trabalho ao que chamamos na teoria social do trabalho da crítica? Perdi porque não amei o suficiente, porque o outro não me amou, perdi e vivo isso como culpa ou como vergonha. Quando não fazemos isso, surgem respostas maníacas. “Opa, agora posso pular esse processo doloroso e vou para o último capítulo, inventar um estado total de felicidade, um início do zero, glorioso, eufórico.”

Esse é o perigo representado pelo populismo de direita, conservador. Parece que a nossa tolerância com o Temer imaginariamente tem a ver com isso. Mais um motivo para entender nossa vergonha, era uma euforia com um negócio que era péssimo. Mas quando não fazemos um luto, vem a mania. Esse é um quadro em que venceria alguém que conseguisse capitalizar melhor a mania, mas acho que não vai vir. Não teremos uma eleição maníaca, é mais possível que tenhamos uma eleição depressiva, que é a segunda patologia do luto. Se você não faz o luto pode cair na melancolia, na depressão, na indiferença, no “eu não quero mais saber”. O que é o nosso suicídio fundamental, você e seu amigo dizem isso, mas o pilantra vai dizer “vão embora, seus deprimidos, porque vou continuar aqui empreitando o Estado a meu favor, fazendo o que sempre fiz com menos gente enchendo a paciência”. Esse seria um cenário péssimo, de desistência, mas que está de certa forma se anunciando.

A saída mais interessante seria se conseguíssemos ter um candidato que não é o novo, que é o maníaco, e que não é o velho, que está na depressão e não saiu disso, mas alguém que fizesse uma espécie de síntese das duas coisas. O que sobrou das nossas desilusões? O que aprendemos com essa guerra? O que sobrou nas ruínas? Ninguém está olhando pra isso, nossa política é esquecer a história e aí vamos repetindo.

E o que tem nas ruínas, pra você?

Tem o “fora do condomínio”, as bicicletas, a reocupação do espaço público… Esquecemos, mas tivemos a ocupação das escolas. Que tal olhar para o ensino de qualidade, para fazer acontecer? Tem o SUS, um projeto mundial, sem precedentes, uma aventura gigante do Brasil. É algo que está nas ruínas. Se não levarmos os pedaços das ruínas e reconstituirmos como um bom luto deve fazer, vamos ficar entre a mania e a depressão.

Fonte: Rede Brasil Atual

 

 

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