09/10/19 Concorrência

Na contramão dos grandes Bancos, Sicredi abrirá 400 agências até 2020

Uma das maiores cooperativas de crédito do País, instituição nasceu para ajudar produtores rurais, mas trabalha para crescer em grandes centros urbanos (Por Fernando Scheller)

Uma das cooperativas de crédito líderes no País, a Sicredi está indo na contramão dos grandes bancos ao abrir agências em vários Estados do País, em vez de fechá-las. De acordo com o presidente nacional do Sicredi, Manfred Dasenbrock, serão abertas 400 agências entre 2019 e 2020. Somente nos primeiros nove meses do ano, de acordo com o Banco Central, os cinco grandes bancos – Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, Caixa e Santander – fecharam 630 agências no País.

As cooperativas de crédito, unidas, são hoje o sexto maior banco do País. Segundo estudo da consultoria Roland Berger com dados de 2017, o Sicredi disputa a liderança de mercado do segmento com o Sicoob. Com sede no Rio Grande do Sul, o Sicredi tem cerca de 4,5 milhões de clientes em todo o País, ativos de quase R$ 100 bilhões e carteira de crédito de mais de R$ 60 bilhões. A companhia, presente em 22 Estados e no Distrito Federal, tem 1,7 mil agências.

Segundo Dasenbrock, a opção pela continuidade da expansão do atendimento presencial está relacionada tanto à demanda do cliente da instituição quanto à necessidade do Sicredi de seguir crescendo em regiões nas quais ainda tem pouca representatividade. Tradicionalmente, diz ele, o banco se expandiu nos grandes polos de agronegócio, mas agora quer se desvencilhar dessa associação, crescendo em grandes centros urbanos.

Embora na Região Sudeste a presença do Sicredi ainda seja discreta, Dasenbrock diz que a cooperativa já tem a maior rede física de atendimento em quatro Estados – Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A cooperativa é a segunda colocada em concessão de crédito rural no País, atrás do BB. Ele diz que o Sicredi é líder em repasses da linha Pronaf, do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e social (BNDES), também voltada ao agronegócio.

O presidente da Roland Berger no Brasil, Antonio Bernardo, afirma que a participação dos bancos cooperativos no mercado brasileiro é baixa, de cerca de 3% dos depósitos. “Para se ter uma ideia da diferença, essa proporção é de 63% na França, de 35% na Holanda e de 21% na Alemanha”, explica o executivo. Entre as instituições que tiveram origem nas cooperativas agrícolas estão Credit Agricole (França) e Rabobank (Holanda).

Na Alemanha, os dois maiores bancos cooperativas passaram por uma fusão em 2016, criando o DZ Bank. É algo que Bernardo afirma que poderia ocorrer no Brasil, com a união de Sicredi e Sicoob. “Como existe complementariedade em agências, a economia com esse movimento poderia gerar uma economia de 25%.”

Juntos, os bancos cooperativas também poderiam tentar reduzir as desvantagens que têm em relação aos concorrentes tradicionais – como a baixa produtividade de suas agências. Hoje, segundo a Roland Berger, Sicredi e Sicoob têm cerca de 2,3 mil correntistas por agência, enquanto os bancos comuns têm entre 5 mil e 6 mil. O volume de vendas para cada ponto de atendimento também hoje representa cerca da metade do total dos líderes.

Pequenas e médias cidades

Enquanto o BB liderou o fechamento de agências no País durante os primeiros nove meses de 2019, contribuindo com cerca de 50% dos encerramentos de pontos de atendimento, o Sicredi vem crescendo justamente de olho nas pequenas e médias cidades, de acordo com Dasenbrock. “Em mais de 200 municípios, somos a única opção de serviços financeiros. Nessas pequenas localidades, descobrimos que a vantagem é um índice de inadimplência muito baixo”, diz.

Apesar de não poderem ser chamadas de banco, as cooperativas estão sujeitas a regulações do Banco Central (BC). Esse tipo de instituição é protegida pelo Fundo Garantidor das Cooperativas, que garante a mesma proteção da poupança de até R$ 250 mil aos clientes. “Os bancos de cooperativas tendem a ser até mais conservadores do que os digitais. Prova disso é que, na Europa, eles foram os menos afetados pela crise financeira de 2008”, diz Bernardo, da Roland Berger.

Atuação digital
O Sicredi também entrou na onda dos bancos digitais, com a plataforma Woop, aplicativo que oferece conta corrente, cartão de crédito e pagamentos. Por enquanto, trata-se de um projeto incipiente, que mal saiu da fase de testes. Enquanto bancos digitais como o Nubank já passaram da marca de 10 milhões de clientes, o Woop, por enquanto, tem menos de 100 mil correntistas.

“É uma forma de dar opção, mas não é a nossa prioridade”, diz Dasenbrock. Segundo ele, nas reuniões com os clientes – que são tratados como sócios e chamados de cooperados – fica clara a demanda pelas agências tradicionais. “Estamos indo na direção contrária, porque o nosso cliente acha que o atendimento humano não é substituído por máquinas e pelo 0800.”

Fonte: Estadão

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