10/01/18 Corrupção

A moralidade de Bolsonaro não passava de um “mito”

O vocábulo “mito”, na língua portuguesa, pode assumir diversos significados, de acordo com o contexto em que seja utilizado. A palavra pode denotar heroísmo, como quiseram os eleitores de Jair Bolsonaro, ao apelidá-lo assim nas redes sociais por, supostamente, possuir características únicas entre os políticos, como, por exemplo, a honestidade. No entanto, a suposta lisura do deputado carioca tem sido frequentemente colocada em xeque, em casos de polêmica utilização de recursos públicos. Para os leitores atentos à política (e à nossa língua-mãe) fica claro que, para utilizar os termos “mito”, “Bolsonaro” e “moralidade” na mesma frase, é melhor utilizar outros sentidos possíveis para a palavra, como inverdade ou utopia.

Conforme demonstrado em recente levantamento realizado pela Folha de São Paulo, Bolsonaro entrou na política possuindo (ou declarando) apenas um carro popular e dois lotes com valores irrisórios. Hoje, possui, juntamente com seus filhos, um valor patrimonial de pelo menos R$ 15 milhões, distribuídos em 13 imóveis localizados, em sua maioria, na cidade do Rio de Janeiro/RJ. O valor não incluiria outros bens, como por exemplo, seus veículos, que chegam ao valor de R$ 105 mil, um jet-ski e aplicações que ultrapassam R$ 1,5 milhão. O mais curioso é que o patrimônio teria sido construído apenas com os vencimentos provenientes do serviço público, subsídio e soldo, que somados não chegam a R$ 30 mil líquidos.

Para efeito de comparação, os valores atuais dos imóveis citados representariam o valor de aproximadamente 15 apartamentos no Guarujá, iguais àquele que gerou uma sentença condenatória, proferida por Moro a Lula, ainda que nenhuma prova tenha sido apresentada. Embora também possua imóveis em Brasília, Bolsonaro recebe o auxílio-moradia da Câmara dos Deputados, no valor de R$ 6.167. Diferentemente de algumas garantias constitucionais, como as imunidades, que são irrenunciáveis, o auxílio pode ser recusado pelos congressistas que possuem imóvel. É uma questão de moralidade.

A “caça aos corruptos” sempre foi um pano de fundo para uma campanha que possui como principais motes o preconceito e o fascismo. A imagem do candidato não deve sair tão arranhada perante seu eleitorado, se Bolsonaro continuar a repetir seus bordões racistas, sexistas e de apologia à ditadura militar e à tortura. Afinal, nem mesmo a condenação por apologia ao estupro e a comprovação de recebimento de verbas da JBS impediram seus eleitores de chamá-lo de mito. Mas, ao menos ao ouvirmos essa expressão, agora saberemos que significado devemos lhe atribuir.

 

Fonte : Guilherme Coutinho. Jornalista, publicitário e especialista em Direito Público. Autor do blog Nitroglicerina Política. Brasil 247.

 

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