16/07/18 Frei Betto

Fundamentalismo econômico

Por Frei Betto

O pas­sado cos­tuma ser co­nhe­cido por eras, como as dos co­le­tores e ca­ça­dores, agri­cul­tores nô­mades e se­den­tá­rios etc. Eras do cobre, do bronze, do ferro…

A an­ti­gui­dade grega se des­taca como era do nas­ci­mento da fi­lo­sofia (em­bora ela tenha outra mãe além da grega, a chi­nesa), assim como a Re­pú­blica ro­mana se des­taca como a era do di­reito.

Como a nossa con­tem­po­ra­nei­dade será co­nhe­cida no fu­turo? Meu pal­pite é que se­remos co­nhe­cidos como a era do fun­da­men­ta­lismo econô­mico. Porque todas as nossas ati­vi­dades giram em torno do di­nheiro. Era do bu­si­ness. Time is money. Do lucro exor­bi­tante. Da de­si­gual­dade so­cial alar­mante. Do im­pério dos bancos.

Era na qual apenas oito ho­mens dis­põem de renda su­pe­rior à soma da renda de 3,6 bi­lhões de pes­soas, me­tade da hu­ma­ni­dade. Era na qual tudo tem valor de troca, e não de dom.

Esse fun­da­men­ta­lismo sub­mete a po­lí­tica à eco­nomia. Elege-se quem tem di­nheiro. Todo o pro­jeto po­lí­tico é pen­sado em função de ajuste fiscal, re­dução de gastos em pro­gramas so­ciais, cortes or­ça­men­tá­rios, pri­va­ti­zação do pa­trimônio es­tatal, re­dução da dí­vida pú­blica.

No altar das Bolsas de Va­lores, tudo é ofer­tado, em sa­cri­fí­cios hu­manos, ao deus Mer­cado. É ele que, com as suas mãos in­vi­sí­veis, abençoa pa­raísos fis­cais, livra os mais ricos de pa­garem im­postos, eleva as co­ta­ções do câmbio, abar­rota a cor­nu­cópia da mi­noria abas­tada e ar­ranca o pão da boca da mai­oria pobre.

Ou­trora meus avós, ao des­pertar de um novo dia, con­sul­tavam a Bí­blia. Meus pais, a me­te­o­ro­logia. Meus ir­mãos, as os­ci­la­ções do mer­cado fi­nan­ceiro.

Su­ca­teia-se o en­sino pú­blico para for­ta­lecer a po­de­rosa rede de edu­cação par­ti­cular. Propõe-se a re­forma da Pre­vi­dência para de­so­brigar o Es­tado de as­se­gurar apo­sen­ta­doria e trans­ferir o en­cargo aos planos de pre­vi­dência pri­vada.

A saúde há tempos está pri­va­ti­zada: mé­dicos pre­ferem fazer parto por ce­sa­riana; ci­rur­gias des­ne­ces­sá­rias são re­co­men­dadas; o SUS não fun­ciona; os planos de saúde e os me­di­ca­mentos têm au­mentos sa­zo­nais.

O mais ne­fasto efeito do fun­da­men­ta­lismo econô­mico é, de um lado, a acu­mu­lação pri­vada e, de outro, a ex­clusão so­cial. Quem tem di­nheiro pre­fere guardá-lo no banco e aplicá-lo no cas­sino fi­nan­ceiro a usu­fruir uma vida mais sau­dável e so­li­dária.

Quem não tem pa­dece a hu­mi­lhação da po­breza, da ca­rência de bens e di­reitos es­sen­ciais, do sa­lário min­guado e do de­sem­prego.

A ex­clusão re­força as vias cri­mi­nosas de acesso ao di­nheiro e ao fe­tiche das mer­ca­do­rias: nar­co­trá­fico, roubo, so­ne­gação e cor­rupção. Agora o rei já não pro­clama “L’État c’est moi”. Ele brada “In Gold we trust”.

Fonte: Correio da Cidadania

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