02/10/18 Politica

ElesNão

Não adi­anta pro­curar na luz, ElesNão es­tarão por lá. Es­tarão na es­cu­ridão. Nos apar­ta­mentos frios, nos es­cri­tó­rios mas­sa­crantes, na es­cu­ridão das ideias. No obs­cu­ran­tismo.

Não adi­anta falar de amor. ElesNão con­se­guem aca­lantar seus co­ra­ções. Não con­se­guem ci­ca­trizar suas de­cep­ções e se­guir adi­ante. Não con­se­guem per­doar a vida por ela ser aquilo que ElesNão que­riam. ElesNão sabem ex­plicar muito bem o porquê, mas o mundo os traiu. ElesNão se sentem re­al­mente re­co­nhe­cidos por seu valor. ElesNão sentem que o sis­tema vem a pre­miar quem re­al­mente me­rece, ou seja, eles sim.

Por isso con­si­deram que o mundo está do avesso, que os va­lores já não são res­pei­tados. Como assim? ElesNão fazem outra coisa senão en­golir sapos, viver do jeito que não se quer viver, em nome de um bem maior. ElesNão fazem outra coisa senão se de­dicar de­vo­ta­mente a todas às crenças do sis­tema. Mas, cadê o prêmio? O prêmio foi para as mãos dos va­ga­bundos, dos sin­di­ca­listas, dos po­lí­ticos, dos fun­ci­o­ná­rios pú­blicos, das re­par­ti­ções, dos co­tistas, de quem não es­tudou, dos uni­ver­si­tá­rios va­ga­bundos que só es­tudam, dos pe­tistas, dos bi­chos grilos, das mu­lheres, de toda essa gente que não tra­balha. ElesNão aceitam isso.

Não adi­anta pro­curar na paz. ElesNão estão lá na paz. Não adi­anta pro­curar nos par­ques, dei­tados da grama e sen­tindo o sol bater no rosto. ElesNão estão por lá. Estão com seus fi­lhos gri­tando no banco de trás, que­rendo mais al­guma coisa, fa­zendo es­cân­dalo, tão in­sa­tis­feitos quanto eles. Esse sen­ti­mento vem de pai pra filho. Então vão todos ao shop­ping. Não tem vaga de es­ta­ci­o­na­mento. As cri­anças gritam mais e mais. Vão olhar vi­trines que não podem mais ser com­pradas. No final vão todos em­bora de novo. Ora de­cep­ci­o­nados, ora mais en­di­vi­dados.

ElesNão as­sumem nem para si mesmos. Mas olham para o pas­sado e ele sempre pa­rece me­lhor do que o dia de hoje. Até mesmo os so­nhos que ti­nham para o fu­turo eram me­lhores. Mas olha só o pre­sente. Tão dis­tante da­queles so­nhos. Onde foi parar aquela cri­ança? Aquele jovem tão oti­mista? Ora, o pre­sente é pior do que o pas­sado porque esse mundo está de pernas para o ar, não é mesmo? Por isso va­lo­rizam tanto as tra­di­ções. As mu­lheres não servem mais. Os ma­ridos não são mais pro­ve­dores. Os fi­lhos não imitam mais os pais. As pes­soas não va­lo­rizam as mesmas coisas que eu. Aliás, não dão im­por­tância para tudo aquilo que eu me de­di­quei por toda uma vida. Temos que lutar para va­lo­rizar tudo aquilo que con­si­de­ramos mais im­por­tante, porque no fundo es­tamos ten­tando provar pra nós mesmos que nossa vida vale a pena.

Qual­quer va­ga­bundo ou va­ga­bunda pa­rece ser mais in­te­res­sante se­xu­al­mente. As pes­soas vivem tran­sando e go­zando por aí e ElesNão par­ti­cipam de nada disso. Fa­zendo coisas com seus corpos que de­sa­fiam os pro­pó­sitos da na­tu­reza. Seria isso tudo per­mi­tido? ElesNão foram in­cluídos. Não foram se­quer con­sul­tados. Quem es­tava no topo da pi­râ­mide da ca­deia ali­mentar se­xual não está mais. Tudo virou uma con­fusão muito grande.

Então pre­cisam cons­truir um deus se­vero, rai­voso, vin­ga­tivo e pu­ni­tivo. Igual a eles.

Ao invés de Deus que fez o homem a sua imagem e se­me­lhança, eles in­ven­taram um deus a sua imagem e se­me­lhança. Já pensou se Deus fosse re­al­mente assim, a cara do Bol­so­naro?

A mo­der­ni­dade não res­peita tra­di­ções nem so­be­ra­nias. Cria con­sensos com con­juntos de in­for­ma­ções que con­tra­riam aquelas pas­sadas pelas fa­mí­lias e re­li­giões. Existe uma dis­so­ci­ação entre o dis­curso he­gemô­nico dos dias atuais e as tra­di­ções que foram que­bradas de uma hora para outra.

As ma­ni­fes­ta­ções de pre­con­ceito e vi­o­lência contra o outro são ins­tru­mentos de re­sis­tência contra a mo­der­ni­dade que, sem lugar do dis­curso pre­do­mi­nante, corre nas trin­cheiras das redes de in­ternet onde tudo se pode dizer, além da pró­pria casa, ob­vi­a­mente. Por isso o que se passou a chamar de po­li­ti­ca­mente in­cor­reto virou uma ban­deira. É a pre­do­mi­nância do dis­curso pri­vado sobre o dis­curso pú­blico, com todas as suas me­di­a­ções e re­gu­la­ções.

Sempre ha­verá quem irá buscar algo nas en­tra­nhas do que há de pior em todos nós. A exa­cer­bação dos sen­ti­mentos de frus­tração, de­cepção e res­sen­ti­mento. Sempre ha­verá al­guém dis­posto a in­vocar o res­gate de certas tra­di­ções.

Por isso, o grande com­bus­tível do ne­o­fas­cismo é a in­fe­li­ci­dade. Uma fonte de energia ne­ga­tiva muito farta e re­no­vável.

Existe uma epi­demia de in­fe­li­ci­dade. Muitos olhos tristes, com lá­grimas tor­tu­radas, amar­radas e de­tidas para não es­ca­parem. Muitas bocas exa­lando o fel da amar­gura e da me­lan­colia, di­zendo coisas hor­ro­rosas e ba­bando ódio.

Há um exér­cito que­rendo voltar ao poder. Um exér­cito de co­ra­ções tristes, in­fe­lizes e de­cep­ci­o­nados. Ilu­didos, pois acre­ditam que o poder po­lí­tico po­derá res­taurar as ve­lhas hi­e­rar­quias. Re­cu­perar o pres­tígio que ElesNão têm mais. O con­su­mismo exige de­mais. A mo­der­ni­dade exige de­mais.

Tem muita gente con­ta­mi­nada pela epi­demia de in­fe­li­ci­dade. ElesNão pensam em outra coisa, senão em es­ganar, tor­turar, ma­chucar e des­truir todos os res­pon­sá­veis por essa in­fe­li­ci­dade, sejam eles da es­fera pú­blica ou do re­la­ci­o­na­mento pri­vado.
ElesNão vão de­sa­pa­recer. Con­ti­nu­arão por aí. Bu­zi­nando alto. Fa­lando alto nas filas. Com raiva de tudo.

Es­tarão nos ve­lhos que ficam nas portas dos bancos, es­pe­rando a agência abrir duas horas antes do tempo, com suas calças de tergal que co­zi­nham suas partes baixas num calor de trinta e cinco graus. Es­tarão nas festas de cri­ança, todos sen­tados com cara de cu, co­mendo mais um bo­linho de queijo. Irão co­meçar fa­lando de au­to­mó­veis, de­pois fa­larão mal da vida dos ou­tros e fi­nal­mente co­lo­carão a culpa de tudo nos co­mu­nistas.

Es­tarão no balcão de frutas do su­per­mer­cado, olhando para dentro do pé de al­face, co­mendo um gomo de me­xe­rica, es­pe­rando na fila dos frios, guar­dando lugar na fila do caixa, bri­gando entre si. Es­tarão to­mando sopa na pa­daria da moda. Es­tarão se­gu­rando a senha de papel, es­pe­rando de pé na fila da loja de ce­lular para ve­ri­ficar se já tem bônus su­fi­ci­ente para trocar de apa­relho. Es­tarão nas bar­be­a­rias que eram po­pu­lares, de­pois vi­raram bregas, de­pois vi­raram trash e agora são cult, retrô, talvez vin­tage. To­marão uma cer­veja ar­te­sanal antes de aparar o can­gote. Es­tarão no centro es­pí­rita, lendo o Chico Xa­vier e no mi­nuto se­guinte de­fen­dendo a pena de morte.

Pode isso? Es­tarão ou­vindo mú­sica ruim onde só vai gente branca. Es­tarão em algum lugar fa­lando mal dos nor­des­tinos, de­pois pla­ne­jando as pró­ximas fé­rias no nor­deste. Es­tarão di­ri­gindo seus táxis ou seus ubers es­pe­rando o pró­ximo pas­sa­geiro para dar uma pa­lestra re­pleta de su­per­fi­ci­a­li­dades. Es­tarão ves­tindo roupas bo­nitas ou feias, não im­porta, você verá que es­tarão ab­so­lu­ta­mente de­se­ro­ti­zados, pois têm um de­serto por dentro.

Ra­fael Cas­tilho é so­ció­logo e pro­fessor da Fun­dação Es­cola de So­ci­o­logia Po­lí­tica de SP.

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