28/10/15 Sonegação

Como os bancos de luxo da Suíça atraem milionários como Cunha

A revelação da existência de supostas contas milionárias do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, na Suíça lançou luz sobre a atuação dos bancos do país, conhecidos mundialmente pela extrema discrição com que lidam com o dinheiro ─ normalmente não declarado ─ dos clientes, entre os quais brasileiros.Eduardo Cunha - presidente da Câmara

Mas como operam essas instituições e o que elas oferecem?

Grandes bancos da Suíça e do Brasil no exterior dedicam partes específicas de suas operações a famílias e empresas que querem investir fora do país. Os departamentos são conhecidos como “Brazilian desk” e têm profissionais especializados em cortejar clientes VIP com promessas de lucro e mordomias exclusivas.

“UBS, Credit Suisse, Julius Baer, Itaú, todos eles têm um Brazilian Desk, ou LatAm Desk”, conta Flávio*, banqueiro de Zurique entrevistado pela BBC Brasil. “O perfil clássico brasileiro é o de um investidor do sexo masculino, por volta de 50 anos de idade, que tem um negócio próprio que deu muito certo. Esse cliente quer garantir estabilidade na herança para as próximas gerações”.

Internamente, os bancos categorizam os brasileiros em uma escala de prosperidade. É “affluent” quem possui até 1 milhão de dólares (R$ 3,9 milhões). São chamados de “High-Net-Worth” os que têm patrimônio entre 1 milhão e 20 milhões de dólares (entre R$ 3,9 milhões e R$ 77,5 milhões). No topo da pirâmide, contudo, estão os “UHNW”: “Ultra-High-Net-Worth”. Para esses indivíduos, os bancos não poupam esforços, nem paparicos.

“A aproximação se dá por contatos sociais normalmente. É um cliente seu que recomenda o amigo dele e assim vai”, conta Flávio.

Mordomias

Os bancos costumam patrocinar eventos para atrair clientes, como a famosa corrida de cavalos sobre o lago congelado de Saint Moritz, o “White Turf”, ou corridas de Fórmula-1. Nessas ocasiões, UHNWs são trazidos de outros países, têm a hospedagem paga e ganham acesso irrestrito aos eventos. Eles são ciceroneados pelos representantes dos bancos, que aproveitam o momento para “construir uma relação pessoal”.

“O que distingue os bancos hoje é serviço. O banco tem que proporcionar experiências que vão além do dinheiro. Se não oferecer isso, é um ponto negativo. O crucial, porém, é a rentabilidade. Só o bom retorno financeiro segura a relação”, avalia Roberto*, investidor com experiência em atender clientes de São Paulo.

Herdeiro de uma família industrial paulista, Rogério* é ex-cliente do Julius Baer e conta que a família remeteu dinheiro ao exterior em busca de segurança. “O que se quer é evitar o risco. A gente constrói o patrimônio de anos, aí vira o câmbio e tudo passa a valer metade. Deixar lá fora é o jeito para se proteger (da desvalorização da moeda brasileira)”, justifica.

‘PEP’

Cada vez mais os bancos suíços buscam focar seus serviços em pessoas como Rogério e evitar perfis como o do deputado Eduardo Cunha, os chamados PEP: “Politically Exposed Person”, ou “Pessoa Politicamente Exposta”.

“Os bancos grandes já nem aceitam mais abrir conta se é para um PEP. O risco de desgaste de imagem não compensa”, explica Flávio. “Hoje, os grandes bancos estão reestruturando suas carteiras de clientes, para tentar limpar o que resta de PEP lá dentro”, acrescenta Roberto.

Possivelmente, foi uma dessas revisões internas que trouxe as contas de Eduardo Cunha à tona. Ele e a esposa eram clientes do Merrill Lynch, banco americano de quem o Julius Baer comprou os negócios relacionados à gestão de fortunas fora dos Estados Unidos em 2012.

(…)

Evasão fiscal

A Associação dos Bancos da Suíça informou à BBC Brasil não possuir estatísticas específicas por país e, portanto, não saber informar quanto do dinheiro hospedado por eles é oriundo do Brasil.

“Não há como precisar o montante de dinheiro remetido ilegalmente por brasileiros à Suíça, até por que muitas vezes isso vem por meio de empresas de fachada que estão em outros paraísos fiscais”, resume Flávio.

Apesar disso, um amplo estudo capitaneado pelo economista do FMI (Fundo Monetário Internacional) Dev Kar tentou avaliar o fluxo ilegal de dinheiro no mundo. Com base em cruzamentos de dados bancários, ele estimou que, em média, entre 2010 e 2012, o Brasil enviou ao exterior ilegalmente US$ 33,7 bilhões (R$ 130,7 bilhões em valores atualizados, ou o equivalente ao PIB de Goiás, o nono maior do Brasil) ao ano. Não foi especificado o montante direcionado à Suíça.

Fonte: BBC Brasil

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