Capitalismo é religião? - Sindicato dos Bancários de Ponte Nova

07/03/18 Economia

Capitalismo é religião?

O ca­pi­ta­lismo é uma re­li­gião? Pa­rece que sim. O Va­ti­cano fica no FMI e no Banco Mun­dial, cujas or­dens dali ema­nadas devem ser re­li­gi­o­sa­mente res­pei­tadas. Roma, em Wall Street. O papa, o pre­si­dente do Fe­deral Re­serve Bank, banco cen­tral dos EUA.

O após­tolo Paulo, Adam Smith. Entre seus teó­logos se des­tacam Locke, Keynes, David Ri­cardo, Hayek e Fri­edman. A te­o­logia, o li­be­ra­lismo. O deus, o Mer­cado, cujas mãos in­vi­sí­veis re­gulam as nossas vidas.

Meca fica em Davos. Todos os anos car­deais e bispos devem pe­re­grinar até a ci­dade suíça para acer­tarem seus re­ló­gios. Suas ba­sí­licas, as Bolsas de Va­lores, para as quais se voltam atentos olhos, co­ra­ções e bolsos dos que ali de­po­si­taram seus dí­zimos. As ca­pelas, os bancos, que pro­metem operar o mi­lagre da mul­ti­pli­cação das mo­edas con­fi­adas às suas mãos.

Seu dogma de fé pro­clama que fora do mer­cado não há sal­vação. O céu, a ri­queza; o pur­ga­tório, as dí­vidas; o in­ferno, a falta de cré­dito e a ex­clusão so­cial. Nas notas de dólar, está gra­vado In God we trust (Em Deus con­fi­amos). Houve pe­queno erro de grafia. A frase cor­reta é In Gold we trust (No Ouro con­fi­amos).

Trata-se de uma re­li­gião ca­nibal. Apro­pria-se até mesmo de Deus ao apre­goar que Ele criou o mundo de­si­gual, para que os ricos sejam ge­ne­rosos com os po­bres, e estes lutem me­ri­to­ri­a­mente por seu lugar ao sol.

O que seria dos po­bres se os ricos não lhes dessem em­pregos e pa­gassem o sa­lário que lhes as­se­gura a so­bre­vi­vência?

Seus santos, ve­ne­rados por ge­ra­ções, são Roths­child, Rock­feller, Ford, Bill Gates, Mark Zuc­ker­berg e tantos ou­tros afor­tu­nados. A te­o­logia é dis­se­mi­nada mundo afora pelas con­fra­rias GM, Sony, Coca-Cola, Nestlé, Apple e muitas ou­tras marcas fa­mosas. Quem é fiel a elas al­can­çará a fe­li­ci­dade, pro­metem os arautos da fé fi­nan­cista.

O Santo Ofício são as agên­cias de risco que aprovam ou de­sa­provam as na­ções in­te­res­sadas em in­ves­ti­mentos. O ca­te­cismo, as obras de Walt Disney, que en­sinam às cri­anças como ser re­sig­nadas como Do­nald, so­vinas como Tio Pa­ti­nhas, im­becis como o Pa­teta.

O ca­pi­ta­lismo aponta os demô­nios dos quais todos os fiéis devem se manter dis­tantes, como o so­ci­a­lismo e o co­mu­nismo. Seu L’Os­ser­va­tore Ro­mano são o Wall Street Journal e The Eco­no­mist.

En­quanto o cris­ti­a­nismo prega a so­li­da­ri­e­dade, o ca­pi­ta­lismo in­cen­tiva a com­pe­tição. O cris­ti­a­nismo re­co­menda o perdão, o ca­pi­ta­lismo a de­sa­pro­pri­ação. O cris­ti­a­nismo, a par­tilha; o ca­pi­ta­lismo, a acu­mu­lação. O cris­ti­a­nismo, a so­bri­e­dade; o ca­pi­ta­lismo, a os­ten­tação.

Nas grandes ci­dades er­guem-se as ca­te­drais desta re­li­gião de culto ao di­nheiro: os shop­ping cen­ters. Nele, os fiéis do con­su­mismo se des­lum­bram di­ante das so­fis­ti­cadas ca­pelas que, aco­li­tadas por belas sa­cer­do­tisas, exibem os ve­ne­rá­veis pro­dutos do­tados do mi­ra­cu­loso poder de im­primir valor a quem os ad­quire.

Aqueles que co­metem o pe­cado de acre­ditar em ética, com­paixão, par­tilha e jus­tiça, a re­li­gião ca­pi­ta­lista, que sa­cri­fica no altar do deus Di­nheiro a vida dos po­bres para as­se­gurar a dos ricos, con­dena ao limbo dos ex­cluídos do festim dos eleitos.

Frei Betto é es­critor, autor do ro­mance “Minas de ouro” (Rocco), entre ou­tros li­vros.

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