04/02/21 Alerta

Brasil vive sob uma ditadura, você percebeu?

Militares governam com o apoio majoritário do Legislativo, avalizados pelo Judiciário, com apoio da mídia, da lúmpen oligarquia e lúmpen classe média

Os generais ditadores da geração do Golpe de 1964 fecharam o Congresso e logo o reabriram para legitimar a ditadura. Reabriram com dois partidos políticos: o do “Sim” e o do “Sim, Senhor”.

Ocorreu que um dos partidos do Sim acabou virando uma grande frente de luta pela democracia que evoluiu e, apoiado pela vontade popular, derrubou a ditadura. Quando essa grande frente ameaçou tornar efetiva a democracia, só tivemos frustrações. A frente não conseguiu naquele momento as eleições diretas e não impôs uma Constituinte soberana.

Esfacelada a frente democrática, ficou fácil para a direita dar o golpe de 2016. E o golpe foi desferido pelo próprio Parlamento em um espetáculo grotesco e deprimente da aprovação da deposição da presidenta.

Depois veio a farsa eleitoral de 2017/18. Os generais diziam que não haveria golpe, que haveria eleições e que as ganhariam. E tudo transcorreu em harmonia com o Legislativo e o Judiciário.

O que é uma ditadura?

É a imposição pela força (das leis e das armas) de uma candidatura única, sem chance de que as representações populares se manifestem. Sem que haja condições para a oposição, apesar de ela ter a maioria dos votos e poder ganhar as eleições se essas fossem justas e democráticas.

Erraram as oposições em 2018 ao aceitarem a derrota sem denunciar terem sido vítimas de uma farsa eleitoral. A sociedade aceitou passivamente diante de uma oposição perplexa.

Foi “eleita” uma dupla de militares. No dia seguinte, já ocupavam o núcleo duro e os postos estratégicos e, na sequência, nada menos que oito mil militares ocuparam todos os ministérios e autarquias do país. Não deixaram um só centro de decisão escapar de sua tutela.

Isso é ditadura.

Eles governam com o apoio majoritário do Legislativo, avalizados pelo Judiciário, com apoio da mídia. Pelo arranjo, fica difícil para um leigo perceber que é uma ditadura, mas é.

Ditadura é o poder de uma só classe que governa o país para si.

O nosso problema é que temos uma lúmpen oligarquia, uma lúmpen burguesia e uma lúmpen classe média. O proletariado que poderia salvar a situação foi devidamente cooptado ou senão manietado, e está impotente diante da força do sistema.

Eleições para a presidência das casas legislativas

O episódio das eleições para a presidência da Câmara e do Senado deixa claro o que pretendo demonstrar.

O presidente da Câmara tem poder absoluto. Nem sequer uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as responsabilidades das mortes pela Covid-19, para apurar o que aconteceu em Manaus, a oposição consegue emplacar.

Na véspera da votação, as provisões fundadas em enquetes realizadas por jornalistas davam vitória para Arthur Lira, do Progressistas, de Alagoas, com 302 votos contra 145 de Baleia Rossi, do MDB de São Paulo. Nada menos que 103 votos de diferença.

A mídia chamava atenção para o fato de que Lira estava condenado por prevaricação em segunda instância e tomou posse como deputado graças a uma liminar.

No Senado, a previsão era de 57 votos para Rodrigo Pacheco (DEM/MG) contra 21 para Simoni Tebet (MDB/MS), confirmados na apuração do pleito.

Um “anexo”

Nas palavras de Rodrigo Maia, o presidente que deixou o posto, o Executivo quer o Legislativo como um anexo. Conseguiu.

Quanto custou? R$ 3 bilhões para 250 deputados e 35 senadores. É assim que funciona, só que não se diz mais compra de votos, agora é “liberação de recursos”.

O PSD sozinho levou R$ 600 milhões. Ângelo Coronel, do PSD da BA, recebeu um extra de R$ 40 milhões para seus projetos. Estando o PSD do Gilberto Kassab fechado com Lira, por que esse prêmio?

A verba é destinada para ser gasta no curral eleitoral do deputado em ações como: construir pontes, asfaltar estradas vicinais, construir casas, etc.

Na ditadura parlamentar é dar a cada um o seu quinhão de acordo com sua força política e fidelidade ao governo. Lira, o estelionatário, fica em terceiro lugar na linha de sucessão da Presidência da República. Se por acaso, o presidente e o vice viajarem, é o presidente da Câmara quem assume. Porém, por ser réu, há dúvidas se Lira poderá ou não assumir o posto.

O PT tem a maior bancada na Câmara. Nos arranjos feitos com anterioridade, caberia ao partido a 1ª secretaria da Casa. É importante. Como eu disse, o poder do presidente é absoluto, assim sendo, Lira mal assumira e tentou desfazer o pacto.  Por fim, o PT ficou com a segunda secretaria.

Custou caro? Não custou nada. São dinheiros previstos no orçamento. Fiquem atentos porque o que vai sair realmente caro para a nação é o que nos espera nos dois próximos dois anos de mandato. Uma só agenda: a neoliberal…

A lúmpen oligarquia e a lúmpen burguesia têm o governo que merecem. A mídia lúmpen recebeu um “pqp” como uma carícia. Morre de medo de perder a sustentação que vem dos anúncios do governo e das empresas estatais ou mistas.

Forças Armadas

Quem decide se será ditadura são as forças armadas. E o que dizem os generais? Que farão o que o povo desejar, seguirão a vontade do povo. Bonito isso, até parece coisa de comunista. Mas, é aí que a porca torce o rabo. Farão tudo o que for necessário para evitar que a nação caia nas mãos dos “comunistas”.

Em que século estamos? Em que país estamos?

Mas é isso mesmo. Seguirão a vontade soberana do povo. E estão preparados para isso. Depois dos EUA, o Brasil tem as forças armadas mais poderosas e não permitirão que a pátria volte às mãos dos comunistas.

A obra (a missão pela qual tomaram o poder) ainda não foi terminada. É assim que pensam generais como Braga Neto, Vilas Bôas, Heleno, Hamilton Mourão, enfim, o núcleo duro do governo.

“Se não reconhecermos o valor desses homens e mulheres que estão lá, tudo pode mudar. Somos o último obstáculo ao socialismo”. Quem diz isso não é o capitão Jair Messias Bolsonaro, mas os generais que comandam as nossas forças armadas e ascenderam ao poder através de uma bem arquitetada Operação de Inteligência.

Generais da pandemia

Nas mãos dessas gentes ultrapassamos 220 mil mortos.

Começou a campanha de vacinação. Um alívio, porém, não se iludam. Contra a incompetência não tem vacina. A cada dia se somam mais más notícias. Não houve planejamento, portanto não há logística. Faltam insumos para tudo, seja para produzir vacinas, seja para atender os enfermos. Manaus é a maior prova disso, falta oxigênio, sobra cloroquina nos tais kits preventivos.

A crise econômica é pré-existente. Já era grave antes da pandemia, agravou-se ainda mais: aumentou o número de desempregados, de desamparados e dos atirados à escala de miséria. São 100 milhões de pessoas que deveriam estar recebendo uma ajuda emergencial de pelo menos um salário mínimo, mas o governo diz que isso é despesa e que não há dinheiro.

Estamos diante de criminosos responsáveis pela morte de mais de mil brasileiros por dia. É preciso convencer que um delito desta dimensão é um crime contra a humanidade. São os adeptos da tortura que não se importam com a vida humana. Criminosos de guerra cometendo crime de traição a pátria.

É urgente denunciar esse genocídio ao mundo!

O judiciário, teoricamente, é o único poder que tem as armas jurídicas, morais para acabar com o genocídio derrubando esse governo e chamando a novas eleições, democráticas com participação de todos.

É preciso mobilizar o povo em torno das bandeiras corretas. Mobilizar em torno do impeachment do capitão é perda de energia, é frustrante porque não leva a nada. Não é o capitão, é o governo como um todo, são os generais golpistas das forças armadas que têm que ser julgados. E para isso precisamos contar com a oficialidade democrática, patriótica, que marche ao lado do povo para salvar a nação.

Termino com frase de um conto de Javier Villanueva, bem apropriada para o que estamos vivendo:

“Quando uma ditadura não te mata de bala, cuidado!”

A Opus Dei, o Centrão e o Genocida te esperam, 40, 42 anos depois e te mata de sede, de raiva, de falta de água para tomar banho, para molhar as plantas.

Paulo Cannabrava Filho é jornalista e editor da Diálogos do Sul

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