14/09/18 Frei Betto

Alerta à classe média

A classe média é a sal­sicha do san­duíche da de­si­gual­dade so­cial. Ela sobe uma rampa en­sa­boada: quanto mais se es­força para atingir o topo, mais es­cor­rega para baixo.

Trata-se de uma classe hí­brida, com va­ri­ados perfis. Há quem já tenha nas­cido na classe média, filho de pro­fis­si­o­nais li­be­rais. Há os que vi­eram da classe as­sa­la­riada ou da zona rural e as­cen­deram so­ci­al­mente graças à es­co­la­ri­dade que seus pais não ti­veram. Há ainda quem se re­fira nos­tal­gi­ca­mente à fa­zenda ou à casa es­pa­çosa dos avós, gente ou­trora abas­tada, cujos netos agora moram em apar­ta­mentos e ga­nham menos do que gos­ta­riam.

A classe média as­cen­dente é mais con­ser­va­dora. Sonha atingir o cume da pi­râ­mide so­cial. Re­go­zija-se por haver tro­cado a car­teira de tra­balho as­si­nada pelo ne­gócio pró­prio e a pe­ri­feria sem sa­ne­a­mento pela rua as­fal­tada.

Para esse setor da classe média, a so­lução para a cri­mi­na­li­dade se re­sume em mais po­lí­cias e mais ca­deias. Não du­vida de que o no­ti­ciário da TV fala sempre a ver­dade. E se sente con­for­tável por pos­suir carro, ce­lular e com­pu­tador, ainda que more de alu­guel e viva en­di­vi­dada.

A classe média des­cen­dente é filha ou neta de uma es­tirpe que, no pas­sado, teve bai­xelas de prata, taças de cristal e em­pre­gadas dia e noite. É so­frido para quem já foi rei perder a ma­jes­tade. Por ter meia dúzia de amigos ricos e boa es­co­la­ri­dade, esse setor vive a ilusão de estar muito pró­ximo de ser aceito no se­leto clube da elite, em­bora tenha cons­ci­ência de que lhe falta o es­sen­cial – ca­pital.

Já a classe média-média os­cila entre o con­ser­va­do­rismo e o pro­gres­sismo. Os avós são con­ser­va­dores, cul­tivam o “Ame­rican way of life”, en­quanto os netos exibem ca­mi­setas com a es­tampa de Che Gue­vara e votam em can­di­datos de es­querda.

Entre todos os seg­mentos da classe média há algo em comum: ai dos fi­lhos jo­vens se os pais não os so­cor­ressem com pe­rió­dicas ajudas fi­nan­ceiras! Se os avós ti­veram em­pregos bem re­mu­ne­rados, e os fi­lhos al­can­çaram a época em que ainda era viável fazer pou­pança, agora os netos estão longe de poder alçar voo pró­prio. São de­pen­dentes fa­mi­li­ares. Se não estão de­sem­pre­gados, ga­nham muito menos do que a ge­ração an­te­rior ao de­sem­pe­nhar as mesmas fun­ções. E sabem que o fu­turo não é nada alen­tador…

Não é mesmo. O avanço téc­nico-ci­en­tí­fico en­gole, cada vez mais, os postos de tra­balho. A mai­oria dos can­di­datos a um deles não pre­enche os re­qui­sitos mí­nimos: não é capaz de re­digir uma carta, não tem lei­tura, não do­mina um idioma es­tran­geiro, tem baixo nível de cul­tura geral.

Qual o fu­turo dessa nova ge­ração? No atual mo­delo de so­ci­e­dade con­su­mista, ne­nhum, ex­ceto para um em cada mil. O sis­tema vi­gente é in­trin­se­ca­mente se­le­tivo e ex­clu­dente.

A saída seria um mo­delo pós-ca­pi­ta­lista ba­seado na re­dução da de­si­gual­dade so­cial e na pre­ser­vação do meio am­bi­ente, an­co­rado na sus­ten­ta­bi­li­dade, como pro­põem Thomas Pi­ketty (“O ca­pi­ta­lismo no sé­culo 21”), e Glen Weyl e Eric Posner (“De­sen­rai­zando o ca­pi­ta­lismo e a de­mo­cracia para uma so­ci­e­dade justa”). Ou uma so­ci­e­dade so­ci­a­lista capaz de com­pa­ti­bi­lizar li­ber­dade in­di­vi­dual e jus­tiça so­cial, pro­pri­e­dade es­tatal e ca­pital pri­vado.

En­quanto não se al­cança o ideal, a única so­lução em curto prazo são po­lí­ticas so­ciais cen­tradas na se­gu­ri­dade e na in­clusão, e o Es­tado como in­dutor do de­sen­vol­vi­mento que pri­o­riza o tra­balho, não o ca­pital.

Fonte: Correio Cidadania

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